A Virgem Sedutora

Penny Jordan




Resumo: Na cama errada!
Quando Leo Jefferson se deita na cama de sua sute de hotel, tem uma agradvel surpresa: encontra uma mulher encantadora e linda, que o faz esquecer o dia estressante
que tivera... Mas no dia seguinte fica sabendo que ela  a to respeitada professora da vila, Jodi Marsh, que dormira por engano no quarto dele. Mas por que ser
que ela aceitou ter uma ardente noite de paixo com ele? Havia algo de errado em toda aquela histria... e Leo comeou a achar que havia cado em uma armadilha!
CAPITULO I
       Jodi no conseguiu resistir  tentao de olhar mais uma vez para o homem que passava pelo saguo do hotel.
       Alto, com mais de um metro e oitenta, devia ter uns trinta e cinco anos. De terno escuro e cabelos ainda mais escuros, havia nele uma sensualidade to marcante
que chamava a ateno.
       Jodi notara isso assim que o vira, caminhando em direo  porta de sada. O impacto que tivera sobre ela fora intenso o suficiente para fazer acelerar o
ritmo de seu corao, uma reao inesperada que no combinava com seu jeito de ser. Por um segundo, Jodi entregou-se a devaneios sensuais e perigosos.
       O desconhecido se virou e, por um instante, deu a impresso de que a olhava tambm, como se entre os dois tivesse havido uma cumplicidade instantnea e profunda.
       O que estava acontecendo com ela?
       Era como se, de repente, a alma de Jodi se perdesse, levando junto seu mundo interno, em geral to inflexvel e previsvel, baseado que era na praticidade
e no bom senso, que gostava de cumprir tudo  risca. Isso tudo desapareceu numa frao de segundo.
       Amor  primeira vista? Jodi? Nunca!
       Decidida, reagiu e recolocou as emoes em seus devidos lugares.
       Na certa, era o estresse por que passava que a estava deixando nesse estado instvel e fantasioso.
       "Voc no acha que j tem preocupao de sobra?", repreendeu-se com muito mais dureza do que faria com um de seus pequenos alunos. No que costumasse repreend-los.
Pelo contrrio, Jodi dedicava-se de corpo e alma ao trabalho de professora na escola maternal da regio. Alguns amigos questionavam essa entrega exagerada e achavam
que ela deveria cuidar de sua vida amorosa, ou da falta dela, com a mesma devoo apaixonada que nutria pelas crianas.
       E era por causa da escola e dos alunos que estava ali naquela noite, ansiosa, na sacada do hotel mais luxuoso da regio, esperando pelo primo, seu aliado
e colaborador.
       - Jodi?
       Ao ver, enfim, o primo Nigel caminhando apressado em sua direo, suspirou, aliviada. Nigel trabalhava a vrios quilmetros dali, numa regional da prefeitura,
e fora por intermdio dele que Jodi ficara sabendo do perigo que ameaava a escola onde lecionava.
       Quando seu primo lhe contara que a fbrica de componentes eletrnicos, que gerava a maior parte dos empregos locais, fora vendida a um concorrente e corria
o risco de ser fechada, recusara-se a acreditar.
       O vilarejo onde Jodi trabalhava lutara muito para atrair novos investimentos e evitar que a populao diminusse ainda mais. A inaugurao da fbrica, alguns
anos antes, revitalizara o local, trouxera dinheiro, criara empregos e atrara jovens moradores. Eram os filhos dessas pessoas que freqentavam a escola de Jodi.
Sem eles, a escolinha teria de fechar.
       Apesar do lao afetivo que mantinha com os garotos e de ter conscincia da importncia do servio que realizava, sabia que o ponto de vista das autoridades
era claro. Se o nmero de alunos ficasse abaixo de um certo mnimo, o estabelecimento seria fechado.
       Depois do esforo que fizera para convencer os pais a apoiar a escola, Jodi no podia ficar de braos cruzados enquanto um empresrio arrogante, insensvel
e megalomanaco fechava as portas da fbrica, em nome do lucro e em detrimento da prpria comunidade!
       Esse era o motivo de seu encontro com Nigel.
       - O que conseguiu descobrir? - perguntou, ansiosa, balanando a cabea, quando o primo perguntou se gostaria de beber alguma coisa.
       Jodi no costumava beber, e era, na realidade, como diziam seus conhecidos, um pouco antiquada para algum que freqentara por vrios anos uma universidade.
Chegara a trabalhar no exterior, antes de decidir-se a viver na tranqilidade do interior do prprio pas.
       - Tudo o que sei  que fez reserva no hotel, a melhor sute, nada menos. Embora, pelo jeito, no esteja aqui no momento. - Ao v-la respirar fundo, Nigel
a olhou, intrigado. - Foi voc quem quis vir aqui se encontrar com ele. Se mudou de idia...
       - No. Preciso fazer algo. A notcia de que pretende fechar a fbrica se espalhou pela vila, ningum fala de outro assunto. Alguns pais j me procuraram para
avisar da possibilidade de terem de se mudar e me pediram que indicasse outras boas escolas regionais. O nmero de alunos est um pouco acima do mnimo exigido.
Nigel, se eu perder mais cinco por cento... E o pior  que, se consegussemos nos manter por mais alguns anos, tenho certeza de que as matrculas cresceriam e ficaramos
com uma boa margem de segurana. Mas para isso a fbrica precisaria continuar em operao. Por esse motivo, preciso falar com esse tal de...
       -  Lo Jefferson. J conversei com a recepcionista e consegui convenc-la a me dar a chave da sute dele. - Ao ver a expresso de Jodi, emendou: - Tudo bem,
eu a conheo, e expliquei que voc tem um encontro marcado com Jefferson, mas que chegou muito cedo. Portanto, acho que o melhor que tem a fazer  subir e ficar
esperando para peg-lo desprevenido quando o homem voltar.
       - No farei uma coisa dessas! S quero que o Sr. Jefferson entenda o quanto ir prejudicar o vilarejo se levar adiante a idia de fechar a fbrica. Pretendo
convenc-lo a mudar de opinio.
       Nigel a observava, apiedado. Jodi era cheia de ideais, mas suas boas intenes no bastariam para lidar com um homem como Lo Jefferson. Nigel pensou em sugerir
que um sorriso caloroso e um charme feminino poderiam funcionar mais do que o tipo de discusso que a prima tinha em mente. Mas sabia como Jodi reagiria  sugesto:
ficaria indignada, pois era contra os seus princpios.
       Ao ver de Nigel, isso era um desperdcio, porque Jodi tinha condies mais do que suficientes de fazer o que quisesse de qualquer homem que tivesse o mnimo
de sangue correndo nas veias. Muito atraente, seu corpo era to perfeito que perturbava qualquer um s de olh-la, apesar de sua tendncia em esconder as formas
voluptuosas com roupas discretas e prticas.
       Os cabelos cacheados eram espessos e brilhantes. Os olhos, de um azul profundo, destacavam-se na pele delicada, que ressaltava ainda mais as mas salientes
do rosto. Se no fosse sua prima, e no a conhecesse desde menina, Nigel tambm se sentiria atrado por sua formosura.
       Mas Nigel preferia garotas que encaravam o flerte e o sexo como um jogo divertido. Jodi levava tudo muito a srio.
       Aos vinte e sete anos, pelo menos pelo que Nigel sabia, ela nunca tivera nenhuma relao de verdade, preferindo se dedicar ao trabalho. Muitos de seus amigos
consideravam tal dedicao um total desperdcio.
       Ao pegar a chave magntica que o primo lhe entregava, Jodi esperava estar fazendo a coisa certa.
       De repente, sentiu a garganta seca de nervoso e, quando contou isso a Nigel, ele disse que pediria algo para ela beber na sute.
       - No podemos correr o risco de voc assaltar o frigobar de tanta sede, no  mesmo? - provocou-a, rindo da prpria piada.
       - No vejo graa nenhuma.
       No fundo, ela se sentia culpada pelo modo forado que arranjara para se aproximar de Lo Jefferson, mas, segundo Nigel, seria a nica maneira possvel de
falar a ss com ele.
       Jodi pensara em marcar um encontro, porm Nigel a convencera a desistir, argumentando que um empresrio to ocupado quanto Lo Jefferson jamais se disporia
a marcar uma reunio com a professorinha de uma escola rural.
       Por isso, fora necessrio arranjar esse desagradvel subterfgio.
       Dez minutos mais tarde, entrando na sute de Lo Jefferson, Jodi torcia para que ele no demorasse muito a voltar. Ela acordara as seis da manh, para trabalhar
num projeto para seus alunos mais antigos, que no final do ano passariam a freqentar a escola das "crianas grandes".
       Eram quase sete da noite, j passava do horrio normal de seu jantar, e Jodi sentia-se cansada e com sede.
       Aprumou-se, nervosa, ao ouvir a maaneta girar, mas era apenas o garom com a bebida que Nigel prometera. Olhou para a grande jarra colorida com suco de fruta
sobre a mesinha a sua frente, que o garom colocara antes de sair apressado e fechar a porta.
       Preferiria tomar gua mesmo. Com a boca seca de tenso, serviu-se e bebeu tudo o que despejou no copo de um gole s. A bebida tinha um gosto estranho, mas
no desagradvel. Por algum motivo, Jodi quis tomar mais um copo.
       Leu o jornal que encontrou e aproveitou para ensaiar vrias vezes o que pretendia dizer a Lo Jefferson.
       Onde estaria ele? Exausta, comeou a bocejar e levantou-se, assustando-se, ao perceber que sentia-se tonta e cambaleante.
       Mas a cabea estava to leve! Desconfiada, observou a jarra de suco. Aquele gosto um tanto amargo bem poderia ser de lcool. Nigel sabia que ela no costumava
beber.
       Confusa, olhou a sua volta, procurando pelo banheiro. Lo Jefferson poderia chegar a qualquer momento, e Jodi queria estar apresentvel, bem-arrumada como
uma executiva. A primeira impresso, sobretudo numa situao daquelas, era muito importante.
       Atravs da porta semi-aberta, que levava  sala da sute, ela percebeu logo que o banheiro ficava fora do quarto.
       Com esforo, conseguiu chegar at l. O que ser que havia naquela jarra, afinal?
       No banheiro enorme e todo branco, Jodi lavou as mos e espalhou gua fria sobre os pulsos, observando no espelho seu rosto vermelho, antes de se virar para
sair.
       No quarto, parou e olhou para a confortvel cama king size. Estava to cansada! Quanto tempo aquele homem ainda levaria para chegar?
       Outro bocejo. As plpebras pesavam. Precisava se deitar, s um pouquinho, at que a tontura passasse.
       Mas antes...
       Com todo o cuidado e a concentrao necessria para um embriagado, tirou a roupa e dobrou-a, meticulosa, antes de esticar-se naquela cama maravilhosa e abenoada.
       Ao destrancar a porta de sua sute, Lo Jefferson olhou para o relgio. Eram dez e meia da noite, e acabava de voltar de uma de duas fbricas que acabara
de comprar. Antes disso, passara a tarde com o genro do ex-dono dessas empresas, um perfeito idiota, que tentara de qualquer maneira convenc-lo a voltar atrs no
negcio.
       - Veja bem, meu sogro cometeu um erro, errar  humano - dissera a Lo, com falsa amabilidade. - Mas mudamos de idia e desistimos de vender as fbricas.
       - Agora  tarde - respondera, seco. - J assinamos o contrato, o negcio est fechado.
       No entanto, Jeremy Discroll continuava a bater na mesma tecla. Queria convencer Lo a voltar atrs.
       - Deve haver um meio de persuadi-lo. Sei que podemos chegar a um acordo. H um bar que acabou de abrir na cidade, com pista de dana e tudo. Esto precisando
de um executivo para montar uma sociedade.  o tipo de negcio que tem tudo pra dar certo aqui. Que tal se passarmos por l para dar uma olhada, sem compromisso?
Depois, voltamos a conversar, quando estiver mais relaxado.
       - De jeito nenhum.
       Lo ouvira boatos sobre Jeremy, dando conta de que era uma pessoa de carter duvidoso, que tentava sempre resolver as coisas a sua maneira, nem que para isso
tivesse de recorrer a propostas inescrupulosas.
       A princpio, Lo resolvera dar a Jeremy o benefcio da dvida. No entanto, depois de conhec-lo, entendeu que os rumores tinham fundamento. A falsa generosidade
daquele homem era irritante.
       Jeremy chegara a ponto de oferecer a Lo servios de acompanhantes. Era o tipo de coisa que Lo abominava. Para ele, qualquer lugar onde o sexo fosse comprado,
onde o ser humano tivesse de se vender para dar prazer a outra pessoa, no tinha a menor graa. Quando ouviu a proposta de Jeremy, no fez a menor questo de esconder
o desprezo que sentia por aquilo.
       Mas Jeremy Discroll no se dava por vencido.
       - No? Prefere se divertir com mais privacidade. Bem, nesse caso, podemos arranjar uma mulher s para voc.
       A frieza da resposta de Lo, no entanto, provocara uma expresso de descontentamento no rosto do insistente rapaz.
       - A verdade  que a possibilidade de voc vir a fechar uma das fbricas est criando polmica por aqui, Jefferson. Um homem com sua reputao...
       - Garanto que minha reputao sobreviver a isso. Lo percebia que sua segurana desagradava o rapaz, assim como notara a inveja nos olhos de Jeremy, ao v-lo
chegar em seu Mercedes ltimo tipo. Lo viu, naquele momento, com o canto dos olhos, que o grosseiro Jeremy Discroll continuara a ler o jornal, fingindo ignorar
sua presena.
       Na pgina aberta, havia uma reportagem sobre um poltico local que tentara, sem sucesso, processar algumas pessoas por invaso de privacidade. A visita de
tal poltico a uma casa de massagens fora o estopim do escndalo, e o jri no se convencera de sua inocncia no caso.
       - Eu no teria tanta segurana quanto a sua reputao se estivesse em seu lugar - insinuara Jeremy, continuando a olhar para o jornal, enquanto falava.
       Lo mediu-o de alto abaixo, antes de ir embora.
       Ao entrar em sua sute, Lo franziu a testa. No mudaria de idia por nada neste mundo. Trabalhara duro, durante muito tempo, para construir seu negcio a
partir do nada. Devagar e com muito sacrifcio, fora construindo seu pequeno imprio.
       Primeiro, deixara para trs os concorrentes e, depois,  medida que crescia mais e mais, passara a adquirir as fbricas que competiam com seus produtos.
       Era o caso da famlia Discroll, que havia duplicado a capacidade de produo de suas empresas. Agora, seria natural que Lo fechasse algumas das quatro fbricas
que acabara de adquirir. Por enquanto, ainda no decidira qual delas seria fechada.
       Mas a insistncia de Jeremy Discroll quase o tirara do srio.
       Cansado, entrou na sute, sem se dar ao trabalho de acender as luzes. Sendo ms de junho, o cu ainda era claro o suficiente, embora a cortina fechada impedisse
que a lua cheia iluminasse todo o ambiente.
       Na certa, fora a camareira quem as fechara, deixando o quarto na penumbra, mas a lmpada do banheiro estava acesa, e a porta, aberta. Lo franziu a testa,
intrigado, e caminhou at l para verificar.
       Deu uma olhada no espelho, passou a mo sobre o queixo e decidiu barbear-se.
       A arrogncia de Jeremy Discroll o zangara a tal ponto que Lo acabara por concluir que os rumores a respeito daquele homem to desagradvel eram a mais pura
verdade.
       Apertando os olhos cinza, que herdara do pai e que eram temidos por todos que tentavam engan-lo, graas a sua extrema capacidade analtica, fez uma careta.
Precisava cortar os cabelos, que j se enrolavam sobre o colarinho. Mas no momento, qualquer coisa que no estivesse relacionada com o trabalho ficava em segundo
plano.
       Seus pais costumavam dizer que no entendiam onde Lo arranjara tamanha determinao e ambio. Para eles, a pequena agncia de notcias que possuam bastara
para que fossem felizes. Agora, estavam aposentados e moravam na cidade natal da me, na Itlia.
       Lo comprara uma propriedade para eles perto de Florena, como presente de bodas de prata. Fora visit-los em maio, no aniversrio da me.
       Ao se lembrar do olhar que recebera da me quando lhe perguntara se no existia ningum especial na vida dele, Lo parou o barbeador. Dissera-lhe, com bom
humor, que no havia, e que no tinha a menor inteno de encontrar algum especial no futuro.
       Com uma aspereza pouco usual, sua me respondera que, nesse caso, ela iria at a vila para procurar uma benzedeira que conhecia tudo sobre ervas e que, dizia-se,
sabia fazer uma incrvel poo mgica de amor!
       Lo rira muito ao ouvir isso. Afinal, no tinha uma amante porque no queria. Vrias mulheres, jovens e atraentes, apareceram como candidatas, umas, discretas,
e outras, sem muito tato, afirmaram que gostariam de compartilhar com ele sua vida, sua cama e, claro, sua conta bancria...
       Mas Lo jamais se esquecera da poca em que ganhara uma bolsa de estudos num colgio misto e de como as meninas olhavam para ele com menosprezo, por causa
do uniforme comprado de segunda mo.
       Aquela experincia ensinara-lhe uma lio que jurara no esquecer pelo resto de seus dias. Lgico, tivera namoradas, mas descobrira, para espanto da maioria
das pessoas, que possua verdadeira averso ao sexo sem compromisso. Isso significava que...
       Sem querer, Lo lembrou-se da reao explcita de seu corpo ao ver aquela mulher na sacada do hotel, quando sara,  tarde. Pequena e cheia de curvas. Pelo
menos, era assim que a imaginara sob as roupas abominveis que usava.
       Como todas as moas da Itlia, a me de Lo tinha um estilo pessoal muito forte em tudo o que fazia. Por isso, ele aprendera a distinguir muito bem a mulher
que sabia se vestir com elegncia. E aquela garota no primava pelo bom gosto.
       Nem ao menos fazia o tipo dele. Preferia as loiras, elegantes e sbrias. Mas no para a cama, para deix-lo fora de si, para faz-lo perder o rumo a ponto
de sentir impulso de abord-las, como estivera prestes a fazer com aquela desconhecida do hotel, Lo nunca se desviava do rumo que traava para si, quanto mais por
causa de uma mulher.
       Com um suspiro de desgosto, tirou a roupa e entrou debaixo do chuveiro. Quando terminou o banho, foi para a cama. Estava mais escuro, mas ainda havia luminosidade
suficiente, graas  lua, que brilhava atrs das cortinas.
       Puxando as cobertas, deitou-se. Para sua surpresa, percebeu que sua cama estava ocupada!
       Acendeu a luz da cabeceira e, furioso, olhou, sem acreditar no que via. Sobre o travesseiro ao lado, espalhavam-se cachos, com certeza uma cabeleira feminina,
que ele logo reconheceu. O nariz aquilino de Lo, uma herana italiana, detectou o cheiro de lcool que ela exalava ao ressonar.
       Mas seus sentidos reagiram de forma bem diferente a outros aromas, uma mistura de ar fresco, perfume de lavanda e uma sensualidade estonteante que Jodi emanava.
       Era a garota da sacada. Lo a reconheceria em qualquer lugar, pelo menos, seu corpo a reconheceria.
       Naquele momento, seu crebro lhe enviou uma outra informao. A voz pegajosa de Jeremy Discroll sugerindo que Lo voltasse atrs no contrato. Ser que aquela
jovem seria a oferta que ele tinha em mente? S podia ser. Lo no conseguia imaginar outro motivo para a presena dela ali, em seu leito.
       Bem, se Jeremy Discroll ousava pensar que ele era o tipo de homem que... Irritado, esticou-se, com a inteno de sacudi-la pelo brao.
       Jodi dormia o sono dos justos. Embalada pelo lcool, parecia estar no meio de um sonho maravilhoso, onde se via abraada pelo homem mais lindo e sensual do
planeta. Era moreno, alto, de olhos cinza e tinha msculos excitantes. Estavam deitados lado a lado, em uma cama enorme, num quarto com vista para o mar, quando
ele se aproximou, tocando-a nos braos e disse:
       - Que diabos est fazendo em minha cama?
       Ainda tonta, sob o efeito do coquetel de frutas, Jodi abriu os olhos adorveis.
       Por que seu amor estaria assim to bravo? Sonolenta, sorriu, mas antes de conseguir formular a pergunta, sua ateno se desviou, e Jodi percebeu quo sensual
ele era.
       Aquele corpo dourado e nu! Hum... Nu! Que delcia! Fechou os olhos, suspirou e os abriu de novo, ansiosa, sem querer perder nada.
       Lo no acreditava no que via, ou no que sentia. Aquela intrusa no s ignorara sua questo, mas ousava toc-lo! No, no o tocava apenas. Explorava cada
centmetro de sua anatomia, que reagia em total desacordo com as palavras que tinha inteno de dizer. Como poderia cham-la de presena indesejada, se estava adorando
seus afagos? Cus! Ela o estava acariciando!
       Dividido entre a vontade racional de rejeit-la e o desejo visceral de abra-la, Lo lutava com todas as foras, para se agarrar  disciplina e ao autocontrole,
que sempre haviam sido os basties de sua existncia, com o intuito de se defender daquela moa, que o atormentava at o limite da resistncia. Chocado, percebeu
que perdera, no apenas a batalha, mas a guerra.
       No entanto, Jodi, impulsionada por alguma energia que no apenas a do lcool, muito mais intensa e poderosa, no percebia nada alm do prazer que experimentava
no sonho em que se encontrava mergulhada.
       Apesar da pouca luz, Lo via os contornos das curvas dela, a cintura fina, os quadris largos, as pernas bem torneadas, a pele delicada e o tringulo negro
que escondia sua intimidade, to tentadora que...
       Com a garganta seca de tenso, se contorcendo de desejo, Lo estremeceu. Via o busto dela, redondo, macio, de pele clara, com os mamilos trgidos. Sem controle
sobre si mesmo, cedeu  tentao de toc-los, sentindo o peso morno dos seios contra suas mos e os bicos eretos de volpia a desafi-lo.
       Jodi suspirou e tremeu de prazer, ao sentir que ele beijava-lhe os seios, tocando os mamilos com a lngua.
       - Como isso  bom! - murmurou, entregando-se s sensaes que ele lhe provocava.
       Lo deslizou a mo pela cintura de Jodi e puxou-a pelos quadris, que se acomodaram to bem a seu toque que pareciam ter sido feitos um para o outro.
       Decidiu ceder  paixo ardente e beijar cada centmetro do maravilhoso corpo dela, para em seguida comear tudo de novo, devagar, at que a irregularidade
da respirao de Jodi se transformasse em uma tortura insuportvel para seus sentidos. Enfim, permitiu-se penetr-la com os dedos, atravs das curvas midas que
levavam a sua intimidade.
       Tocou-a de leve, e depois com mais mpeto. Era to macia, quente e delicada, que Lo, ignorando os gemidos de Jodi, preferiu am-la devagar e com cuidado.
       Sentia-a se contorcer em frenesi, pronunciando palavras e frases incompletas que o atingiam como descargas eltricas. Jodi pedia, sem acanhamento, o que queria
e como queria. De alguma forma, conseguia manipular os dois corpos ao mesmo tempo, de tal maneira que Lo acabou por penetr-la, sem conseguir mais se conter.
       Jodi escutava os sons que Lo fazia, mexendo-se dentro dela. O prazer de sentir o prprio corpo se expandir para acomod-lo era to sensacional que ela gritava
de felicidade. Adorava a sensao de envolv-lo, de conter e proteger, de algum modo, sua essncia masculina.
       Lo pressentia que alguma coisa muito especial estava acontecendo e que seu corpo deveria estar lhe avisando isso de alguma forma, atravs de sua percepo.
Mas, diante da urgncia e da intensidade de suas sensaes, era incapaz de formular algum pensamento coerente.
       Sentiu o xtase dela, vezes seguidas, com tanto vigor que Lo tambm atingiu o auge, experimentando uma completude totalmente nova para ele.
       Ao v-la em seus braos, ainda trmula de deleite, com os cabelos encaracolados e macios sobre seu peito, Lo ouviu-a sussurrar:
       - Foi delicioso, meu amor, meu incrvel amante.
       Ento, ao olh-la de novo, percebeu que cara no mais profundo sono, com a inocncia de uma criana.
       Observou-a com cuidado. Para Lo, no havia a menor dvida: aquela mulher fora encomendada e contratada por Jeremy Discroll. E ele cara como um idiota na
armadilha que lhe fora armada.
       No momento, quando j tinha condies de pensar melhor sobre o assunto, desconfiava de que aquilo no era apenas uma armao de Jeremy Discroll. Afinal, um
homem daquele tipo no poderia ser to altrustico assim. Claro que no, de forma alguma, e Lo sabia que no se enganara ao notar o jeito invejoso com que Jeremy
o olhara naquela tarde.
       Jeremy sabia que Lo no voltaria atrs no negcio, a menos que acreditasse possuir algum meio de for-lo a desistir.
       Agora, j tarde demais, Lo lembrou-se do artigo de jornal que Jeremy Discroll lia, enquanto conversavam.
       Para um homem solteiro, um escndalo sexual publicado na grande imprensa do pas no teria um efeito to devastador. No entanto, Lo, um empresrio respeitado,
seria motivo de piada, e poderia perder credibilidade no mundo do negcios. Se isso acontecesse, correria o risco de no ser mais levado a srio. Nenhum executivo,
nem mesmo de tanto sucesso como Lo, desejava isso.
       Levantou-se da cama, lanando um olhar ressentido em direo a Jodi. Como conseguia dormir com tanta tranqilidade? Como se... como se...
       Sem se conter, Lo desviou o olhar para os lbios dela, ainda curvados num sorriso de satisfao.
       At mesmo nos sonhos aquela garota era capaz de continuar a fingir, como se o que tivesse acontecido entre eles fosse mesmo algo muito especial! Sem dvida
era uma atriz talentosa. S podia ser isso.
       Seu comportamento era to incompreensvel que no conseguia entender bem o que se passara. Era como se tivesse sido possudo pelo esprito de outra pessoa.
Como fora capaz de deixar as coisas fugirem tanto a seu controle?
       Ento, por que ainda continuava ali, do lado da cama, a olh-la, quando o mais sensato seria tomar um banho to quente quanto possvel, at que tivesse eliminado
de sua pele o perfume dela, seu gosto e todas as sensaes que havia lhe deixado? Por algum motivo incompreensvel, isso era a ltima coisa que desejava fazer.
       Por pouco, conseguiu evitar toc-la de novo. Queria acariciar o rosto dela, seus clios longos, o nariz delicado e pequeno, os lbios macios.
       Como se pressentisse que algum a olhava, Jodi soltou um suspiro doce e sexy, que em seguida se transformou num sorriso de luxria.
       O que estava fazendo, afinal, ao permitir que ela dormisse daquele jeito em sua cama? Lo consultou o despertador. Eram duas horas da madrugada. Tentava se
convencer de que agia assim guiado por seu senso de responsabilidade.
       No seria seguro para nenhuma mulher, nem mesmo uma como aquela, sair sozinha to tarde da noite. Tudo poderia acontecer.
       Mas no voltaria para o leito, no se deitaria ao lado dela, de jeito nenhum.
       Foi at o banheiro, pegou um robe e em seguida dirigiu-se  sala da sute, fechando a porta.
       Acendeu a luz, e a primeira coisa que notou foi a jarra e o copo onde Jodi bebera.
       Franzindo a testa, empurrou-os para o lado. Ela tivera a audcia de pedir que trouxessem bebida ao quarto dele. Ser que precisava desse estmulo para ter
coragem de se entregar a ele?
       No podia cair na armadilha de sentir pena dela. No tinha desculpas, ela sabia muito bem o que fazia.
       J que estava acordado, poderia trabalhar um pouco. Quando sua sedutora acordasse, teriam uma conversa curta e direta.
       No permitiria que Jeremy Discroll o chantageasse para obrig-lo a recuar.
       Ainda com a testa franzida, esticou-se para apanhar a pasta.
       CAPTULO II
       Jodi esfregou os olhos e fez uma careta, ao sentir um gosto amargo na boca. A cabea doa e o corpo tambm, mas eram dois tipos bem diferentes de dor. O corpo
estava dolorido de prazer, mas a cabea...
       Com cuidado, moveu-se, mas logo se arrependeu, quando sentiu as pontadas que latejavam em suas tmporas.
       Levou a mo  cabeceira, esperando encontrar uma mesinha conhecida. S ento notou que no se encontrava em seu quarto.
       Onde estaria? Devagar, como uma bruma da manh, as imagens, os sons, as lembranas reapareceram perigosamente em sua memria. Claro que no, ela no poderia
ter... No!
       Assustada, olhou para o outro lado do leito enorme, o corao batendo forte, e em seguida mais tranqilo, quando percebeu que no havia ningum ali. Tudo
no passara de um sonho, chocante e inaceitvel.
       Jodi no imaginava como ou por que, mas, como que petrificada, notou que no outro travesseiro havia a marca ntida de uma cabea.
       Tremendo, chegou mais perto e ficou paralisada ao sentir um perfume ao mesmo tempo familiar e estranho exalar no lenol.
       O que antes no passava de uma imagem vaga e nebulosa ganhava nitidez a cada batida de seu pulso palpitante.
       Era verdade! Naquele quarto, naquela cama!
       Onde estaria ele? Nervosa, Jodi fitou a porta do banheiro, desviando a ateno ao ver as prprias roupas dobradas sobre uma cadeira.
       Sem parar para raciocinar, levantou-se e se apressou em se vestir, mantendo o olhar fixo na entrada do banheiro.
       Gostaria de tomar um banho e de escovar os dentes, mas no ousaria fazer isso. As recordaes invadiam-na, e tudo piorava pelo efeito do lcool. Como pudera
se comportar daquela maneira? No conseguia compreender.
       Desgostosa, lembrou-se de que bebera. A bebida, aquele coquetel forte que lhe fora servido, tivera um efeito devastador. A mulher virginal cedera lugar a
uma fmea sexy, agressiva e apaixonada.
       Jodi ficou plida. No era mais virgem. O fato no tinha tanta importncia em si, mas, levada apenas pelo impulso, ela se esquecera de tomar as devidas precaues
para proteger sua sade e evitar uma gravidez.
       Implorou ao destino para que no a punisse por sua estupidez e rezou para que seu ato no tivesse nenhuma outra conseqncia, alm da humilhao que sentia
em seu ntimo.
       Apanhou a bolsa e caminhou, p ante p, em direo ao banheiro.
       Lo imaginava por quanto tempo sua indesejada visita pretendia continuar a dormir em sua cama. Ponderava se cinco da manh seria cedo demais para pedir caf
no quarto, quando ouviu um barulho.
       Embora precisasse muito dormir com conforto, decidira no voltar para o leito enquanto aquela mulher estivesse l. Bastava ter sido seduzido uma vez daquela
maneira alucinada, expondo seu lado mais vulnervel.
       Mesmo agora, depois de trs horas sozinho, era difcil compreender o que se passara. Lo continuava incapaz de controlar o prprio desejo.
       Sim, sentira o gosto agridoce da atrao, desde o primeiro momento em que a vira. Mas, depois de saber que tipo de mulher se tratava, o normal teria sido
perder todo o interesse.
       Ao ver a porta se abrir, ficou tenso.
       Num primeiro momento, pensando apenas num jeito de escapar o quanto antes dali, Jodi no o notou, parado em frente  janela.
       Amanhecera, e a luz clara e fresca iluminava toda a sala. Quando se deu conta da presena dele, Jodi sentiu-se queimar por dentro, corando como os raios de
sol daquela manh de vero.
       Lo viu o desespero estampado no semblante dela, quando Jodi olhou para a sada principal da sute. Prevendo o que ela faria, correu para l, para evitar
que escapasse.
       Ao v-lo, Jodi sentiu um intenso calor. Era ele! O homem que vira no saguo do hotel, que achara atraente e que despertara nela as fantasias mais extraordinrias!
       De soslaio, avistou a fatdica jarra de coquetel e o copo ainda sobre a mesa.
       - Sim, voc no apenas invadiu minha sute como teve a coragem de pedir bebida por minha conta. Pretende pagar do prprio bolso pelo uso de minha cama e do
bar ou prefere que eu mande a conta para Jeremy Discroll?
       Jodi, que at ento permanecera muda, fitando a jarra, virou o rosto para   olh-lo depois de ouvir o nome da pessoa que mais detestava naquela vila.
       - Jeremy?
       O sogro de Jeremy Discroll era dono das fbricas que Jeremy administrava, mas isso no os tornava populares no vilarejo. Jeremy tinha uma ndole duvidosa
e, para cortar os custos, tentara adotar prticas perigosas, que por sorte haviam sido evitadas graas  ao do sindicato dos trabalhadores e do Ministrio da Sade.
       Mas ela no fazia a menor idia do que Jeremy teria a ver com sua situao no momento.
       -  Sim, Jeremy - confirmou Lo, imitando o tremor da voz dela. - Sei muito bem o que aconteceu e por que est aqui. Mas se pensa que vou me deixar chantagear
por ter cedido ...
       Com dificuldade, tomada de vergonha, Jodi engoliu, a garganta seca de nervoso.
       Ser que Lo Jefferson pensava mesmo que ela era do tipo que faria uma coisa dessas?
       A palavra "chantagem" a deixara atordoada. Porm, se para ela a realidade j era algo difcil de suportar, que dir admitir o fato diante de outro algum.
De nada adiantaria dizer que bebera e que no tinha conscincia do que fizera.
       Fazer amor com um estranho, sobretudo depois de ter desejado tanto tudo aquilo... Com que moral poderia encarar as crianas da escola? Como poderia ser responsvel
pela educao delas?
       Teve um calafrio ao imaginar como reagiriam os pais e mesmo os diretores se soubessem de seu comportamento.
       - Pode voltar l e dizer para quem a contratou que o dinheiro foi muito bem empregado, mas que isso no mudar em nada meus planos. No vou desistir das fbricas,
nem pretendo cancelar o contrato. Nem sequer imagino o motivo que levou Jeremy a contrat-la para fazer sexo comigo. Mas tudo o que ele me proporcionou foi uma noite
de prazer sem compromisso feita com muito profissionalismo. Se Discroll pensa que pode usar isso contra mim... - Lo deu de ombros, para mostrar sua indiferena,
observando a reao dela.
       Jodi estava plida, e Lo diria que parecia acuada, no fossem as circunstncias.
       Ela lutava para controlar sua confuso e se esforava para encontrar algum sentido nas palavras que ouvira de Lo Jefferson.
       No momento, no levaria em considerao os insultos que lhe eram dirigidos. Pensaria nisso mais tarde, quando estivesse sozinha. Contudo, a ligao dela com
Jeremy Discroll era um disparate total.
       Abriu a boca, com inteno de dizer isso, mas, antes que o fizesse, Lo exclamou:
       - No sei quem voc , nem por que escolheu um jeito to destrutivo de ganhar dinheiro!
       Ignorando a ltima parte do comentrio, talvez como uma forma de se defender, Jodi gravou na memria apenas a primeira frase: "No sei quem voc "...
       Se ele no sabia, no seria ela era quem iria lhe contar. Com muita sorte, conseguiria salvar sua reputao, se o que acontecera ficasse s entre eles dois.
       Jodi abandonou a idia inicial que a levara at ali. Como poderia conversar com Lo sobre o futuro da escola depois do que acontecera? Mais uma vez, sentiu
o peso da culpa. Decepcionara-se consigo mesma, deixara de lado seus princpios e valores e magoaria seus alunos tambm. O pior era que no conseguia entender o
que se passara. A embriaguez no justificaria seu comportamento.
       Lembrou-se de como reagira quando vira Lo Jefferson na tarde anterior. Claro, no sabia quem ele era ento. Apenas o achava muito atraente.
       Atormentada com o que fizera, experimentava o desespero e a vergonha tomarem conta de todo seu ser.
       Permanecer em silncio, sem revidar as agresses que sofria, era apenas uma estratgia para lidar com aquela situao inaceitvel.
       Ao v-la angustiada e em aparente estado de choque, Lo concluiu que era, sem dvida, uma excelente atriz.
       - Preciso ir embora. Por favor, deixe-me passar.
       A voz macia o fez rememorar os sussurros de prazer que ouvira. No podia ser! Ainda a desejava!
       Embora Lo no tivesse feito um nico gesto para se afastar da porta, Jodi juntou todas as foras que lhe restavam e caminhou, decidida, sem olhar para o
lado.
       Durante o curso de Pedagogia, fizera um estgio com adolescentes rebeldes, sem se apavorar. Ser que no era capaz de encarar um homem comum?
       Ao perguntar-se isso, riu por dentro, consciente de que o uso do termo "comum" para se referir a Lo Jefferson era um grande absurdo.
       Ali estava uma moa corajosa, concluiu Lo, ao v-la passar por ele, com toda a calma. Mas era lgico que, sendo uma profissional, era treinada em lidar com
sadas estratgicas sem se intimidar. Constrang-la seria contra seus princpios, mas no poderia permitir que ela se fosse sem antes dizer tudo o que achava dela
e daquele que a contratara.
       No entanto, Jodi percebeu o perigo de continuar ali por mais um segundo que fosse. Estariam muito prximos, lado a lado. Com um suspiro de alvio, ps a mo
na maaneta.
       Lo esperou que ela a girasse, antes de fazer um ltimo comentrio:
       - Discroll acha que fez uma boa jogada, mas pode dizer a ele que no foi. Ah! S um ltimo aviso para voc, em particular. Se tentar publicar qualquer coisa
a respeito do que aconteceu ontem, pode ter certeza de que as conseqncias do escndalo sero dez vezes piores para voc do que para mim.
       Jodi se manteve calada. Jamais nunca passara por uma situao to dolorosa e vexatria.
       Lo Jefferson parecia ainda no ter terminado. Antes que Jodi pisasse no corredor, ele segurou a porta, colocando a mo sobre a dela, um toque forte e masculino
que a fez estremecer.
       - Claro que se voc fosse mesmo esperta poderia ter vendido sua histria por um preo muito mais alto.
       Mesmo sem querer, ela se viu tentada a perguntar:
       - O que... quer dizer com isso?
       Ele deu um sorriso cnico de satisfao.
       - Que seria natural que tivesse barganhado um preo para seu silncio. Eu teria pago muito mais do que Discroll.
       - Eu no... eu no... Olhe, no h dinheiro que pague o que... vivi ontem  noite. - E, antes que ele tivesse tempo de falar qualquer outra coisa que a magoasse
ainda mais, conseguiu soltar-se e correu para o elevador.
       Uma camareira de uniforme parou para olh-la, mas Jodi no estava em condies de perceber nada.
       Lo a observava, furioso. Ser que ela o julgava to tolo a ponto de acreditar naquela frase de pureza vitoriana? Bem, quanto s lembranas que aqueles momentos
de prazer deixaram em seu corpo, no poderia negar que a histria era bem outra.
       Para alvio de Jodi, ningum deu por sua presena ao atravessar o saguo.
       "Pare de pensar nisso", dizia a si mesma ao alcanar a rua,
       A primeira coisa que faria quando chegasse em casa seria tomar um banho, decidiu. Em seguida, escreveria uma carta para Lo Jefferson, falando sobre as conseqncias
sociais que o fechamento da fbrica teria sobre a comunidade local. Depois do que houvera, no existiria a menor chance de conversar com ele face a face. E por ltimo
cairia na cama e tentaria recuperar o sono atrasado.
       Trancaria a sete chaves as lembranas da vspera, enterrando para sempre na memria tudo o que se dera entre ela e Lo Jefferson, para que nunca ningum descobrisse
esse seu segredo.
       Jodi abriu a porta do pequeno chal, construdo no sculo XVIII, que fazia parte de um conjunto de oito casinhas idnticas, todas com um pitoresco jardim
que dava para a vila. Atrs, havia um imenso gramado. Depois de olhar para trs, subiu as escadas, como se arrastasse o mundo em suas costas.
       Quando acordou, aps algumas horas, com o som do telefone, Jodi atendeu, assustando-se ao constatar que j passava das dez da manh. Era seu costume, aos
sbados, ir para a cidade, fazer compras no supermercado, antes de encontrar os amigos para almoar.
       Por sorte, para esse dia no combinara nada com antecedncia, j que a maioria de seus amigos viajara com a famlia, por estarem de frias.
       Ao tirar o aparelho do gancho, sentiu o estmago reclamar, embora achasse impossvel ser Lo Jefferson. Afinal, ele nem ao menos sabia seu nome, graas a
Deus!
       Um arrepio de excitao subiu-lhe pela espinha, logo seguido por uma estranha decepo, que ela jamais admitiria nem para si mesma, ao ouvir a voz do primo,
Nigel.
       Era de se esperar, depois de tudo por que passara, que seu estado emocional estivesse afetado. O trauma que sofrera afetara seu equilbrio interior, e Jodi
sentia dificuldade de reagir direito s situaes reais.
       - At que enfim, Jodi!  a terceira vez que ligo. Como foi seu encontro com Lo Jefferson? Estou louco para saber.
       Jodi respirou fundo. O corao bateu mais forte, de remorso e vergonha. A mo que segurava o aparelho ficou molhada de suor. No sabia mentir, jamais soubera.
       - No o encontrei - afirmou, de repente.
       - Voc foi embora?
       Jodi agradeceu aos cus. Nigel acabara de sugerir uma desculpa perfeita que lhe permitiria sair de seu dilema.
       - Eu... estava cansada e comecei a ficar confusa e... Mas, antes que tivesse tempo de contar ao primo que pretendia escrever uma carta para Lo Jefferson
em vez de falar pessoalmente com ele, Nigel a interrompeu:
       - Achei mesmo que no teria coragem. Tudo bem. O titio aqui dar um jeito para voc. Falei com o meu chefe sobre o assunto, que me convidou para jantar hoje
 noite, e perguntei se poderia lev-la comigo. Ele ter uma reunio com Lo Jefferson na prxima semana e, se voc explicar o caso direitinho para meu chefe, tenho
certeza de que incluir a escola na pauta da reunio.
       - Nigel, foi muita gentileza de sua parte, mas creio que no... - Jodi no tinha a menor disposio de enfrentar um jantar, e, quanto  possibilidade de expor
o que estava acontecendo ao chefe de Nigel, que era responsvel pela Secretaria de Planejamento, sentia-se muito insegura, devido  auto-estima to abalada.
       Nigel, no entanto, parecia no ter inteno de ouvir um "no".
       - Tem de ir, Jodi. Graham quer encontr-la. O neto dele  aluno de nossa escola e, pelo visto, gosta muito de voc. Embora...
       - Nigel, no posso ir.
       - Evidente que pode. E deve. Pense na escola, garota. Passo a s sete e meia. Esteja pronta. - E desligou, antes que Jodi pudesse reclamar mais uma vez.
       Desanimada, Jodi olhava para a tela do computador. Passara a tarde inteira tentando redigir a mensagem que enviaria a Lo Jefferson. A enxaqueca com que acordara
havia passado, mas sempre que tentava se concentrar, a imagem indesejada de Lo invadia sua conscincia.
       No era apenas o rosto dele que aparecia em suas lembranas, mas cada detalhe do que houvera entre os dois. Jodi notou que estava vermelha como as petnias
exuberantes que cresciam no canteiro de sua vizinha. A Sra. Fields, uma doce velhinha de oitenta anos, continuava a ser uma dedicada e exmia jardineira. Uma vez
explicara a Jodi que gostava das cores fortes porque essas ela conseguia enxergar direito.
       O canteiro de Jodi, ao contrrio, tinha uma combinao de tons de verde e cinza, na mesma tonalidade dos sensuais olhos de Lo Jefferson.
       Suas faces ficaram ainda mais rubras e quente, quando se voltou para a tela e percebeu que, distrada, comeara a carta assim: "Prezado Olhos Sensuais".
       Depressa, apagou e comeou de novo, lembrando-se de como seria importante convencer Lo da importncia de evitar o fechamento da fbrica.
       As pequenas vilas estavam desaparecendo em todo o pas, transformando-se em cidades-dormitrio para trabalhadores das cidades maiores, embora todos naquela
em que ela morava trabalhassem duro para preservar o lugar em que viviam.
       Se o chefe de Nigel os apoiasse, seria um forte aliado para a defesa da causa.
       Franzindo a testa, Jodi afastou a cadeira. Teria de se acostumar a lutar pela sobrevivncia da escola, dali em diante.
       Quando fora indicada para ocupar o cargo de professora, sabia que seria por um tempo limitado. Mas, embora soubesse que poderia aumentar seu rendimento se
fosse transferida para um estabelecimento maior, assim que percebera os efeitos que o fechamento da escola teria, comeara a se esforar para ganhar mais alunos.
Tentara at mesmo convencer pais que tinham a inteno de mudar os filhos para um estabelecimento particular a desistir da idia para dar uma chance  escolinha
primria local.
       Seus esforos tinham valido a pena, pois Jodi sentia-se recompensada de muitas maneiras. Jamais esqueceria o orgulho que sentira quando a escola recebera
um prmio de qualidade, depois de uma inspeo feita pela Secretaria da Educao.
       Orgulhava-se de toda a comunidade: dos alunos e pais que haviam apoiado a iniciativa, que reconheciam o resultado do prprio esforo e as vantagens de se
trabalhar em equipe, que servia de exemplo e estmulo a todos os alunos.
       Jodi provara como um ambiente de segurana e amor contribua para o crescimento das crianas, para valoriz-las como indivduos, contribuindo para a formao
de valores, formando uma base slida que as acompanharia para o resto de suas vidas. Porm, de alguma maneira, explicar isso para Lo Jefferson seria muito mais
difcil do que imaginara.
       Talvez por suspeitar que ele j decidira o que fazer e que, do ponto de vista dele, a pequena comunidade que destruiria no era nada perto dos lucros que
poderia obter. Ou quem sabe fosse porque s conseguia pensar numa nica coisa: a noite que haviam passado juntos.
       Quanto mais tempo passava, mais ficava difcil acreditar no que acontecera. Aquele comportamento no combinava com seu jeito de ser, e a prova disso era que
Lo Jefferson fora o primeiro homem de sua vida.
       Confusa demais para se concentrar, Jodi comeou a andar de um lado para o outro em sua sala de visitas.
       Embora estivesse atordoada com sua atitude, no podia negar que sentira prazer, que gostara dos carinhos de Lo, da maneira como a possura.
       Ora, isso na certa tinha a ver com o fato de estar meio bbada, meio dormindo, tentava se justificar, antes de seu forte sentido de responsabilidade faz-la
lembrar a forma com que reagira quando o vira, ainda sbria e bem acordada, no saguo do hotel.
       Eram quase seis horas. A carta ainda no estava pronta, e Jodi teria de termin-la mais tarde, pois precisava se arrumar para sair.
       Nigel j tivera muitos aborrecimentos por sua causa, e Jodi deveria ser muito grata a ele pelos favores que lhe prestara.
       Todavia, tudo o que queria, na realidade, era ficar em casa e se esconder do mundo, at que compreendesse o que se passara com ela.
       CAPITULO III
       Lo fez uma careta ao passar a mo pelo rosto recm-barbeado. No tinha a menor vontade de sair para jantar. Mas, quando Graham Johnson, secretrio de planejamento
regional da prefeitura, ligara convidando-o para jantar em sua residncia, Lo achou que no podia recusar.
       Seria bom para os negcios estabelecer uma relao amigvel com a autoridade local. Lo j havia encontrado Graham antes e simpatizara com ele.
       Quando Graham explicara que havia algum em particular que gostaria de lhe apresentar para uma conversa informal, Lo pressentiu que o secretrio ficaria
decepcionado se no aceitasse o convite.
       Alm do mais, se sasse, pelo menos pararia de pensar na nica coisa que, desde a vspera, no saa de sua cabea: aquela mulher sensual e inesquecvel que
invadira-lhe no apenas a sute, mas tambm o corpo e a mente.
       Era estranho Jeremy Discroll ainda no ter entrado em contato, e Lo esperava que aquele sujeito desagradvel tivesse suficiente bom senso para perceber que
ele no estava disposto a ceder a nenhum tipo de chantagem.
       No entanto, pressentia que Discroll no desistiria assim to fcil. Se chegara ao ponto de pagar uma garota de programa para invadir sua sute era porque
pretendia cobrar pelo servio de algum jeito.
       Ser que Discroll j testara as habilidades sexuais daquela morena provocante?
       Lo ficou chocado quando percebeu o disparate de sua conjectura. Devia estar ficando louco! Onde j se viu sentir cime de uma moa como aquela, que se entregaria
a qualquer um?!
       Sem querer, lembrou-se de como se sentira, dentro dela, como se estivesse envolvido por um abrao apertado. Imaginou-se como o primeiro homem que a penetrara.
       - Pois sim!
       Decerto, perdera mesmo o juzo, dizia-se, irritado consigo mesmo, enquanto procurava por uma placa na rua para se certificar de que seguia o caminho certo.
       - Jodi, no est me ouvindo.
       Ela sorriu, como se quisesse se desculpar com o primo, que estacionava na frente da casa do chefe dele.
       - Admita, voc est um pouco estranha hoje. - Nigel olhou-a com preocupao. -  a escola que a est perturbando desse jeito? Espero que seja s isso.
       Ignorando a questo, Jodi respirou fundo, determinada a tirar uma dvida que a espicaava desde a noite anterior.
       - Nigel, por que pediu aquele coquetel para mim ontem? Sabe que no bebo. O que deu em voc, afinal? Eu bebi achando que era suco, mas...
       - Ei, espere um minuto! - protestou o primo, surpreso. - No pedi nenhuma bebida para voc. Deve ter havido algum engano.
       - Mas o garom me serviu algo bastante forte ontem na sute de Lo Jefferson. Isso eu posso garantir.
       - O rapaz deve ter feito confuso. Pedi um coquetel de frutas. Bem que achei um pouco caro, devia ter desconfiado. Que desperdcio! Espero que no tenha tomado,
depois de dar o primeiro gole e perceber que havia alguma coisa errada. Tomou?
       Antes que fosse obrigada a mentir para ele, Nigel a tomou pelo brao, e eles caminharam at a entrada da casa de Graham Johnson, um homem alto, de cabelos
grisalhos, que os recebeu com um amvel sorriso.
       - Voc deve ser Jodi. - Cumprimentou-a e se apresentou: - J ouvi falar muito a seu respeito.
       Ao perceber o olhar atravessado de Jodi para Nigel, o anfitrio balanou a cabea, rindo.
       - No, no foi Nigel que me falou de voc, embora ele j tivesse mencionado que era seu primo. Referia-me a meu neto, Henry. Ele  seu aluno e tambm um grande
admirador. Com razo, de acordo com os pais dele. Nossa filha, Charlotte, ficou impressionada com os progressos que Henry teve na leitura, depois que entrou nessa
escola.
       Jodi sorriu, agradecida pelos elogios e, ao acompanhar Graham at a sala de visitas, passou a sentir-se mais relaxada.
       Mary Johnson era to amvel quanto o marido. Contou a Jodi que tambm fora professora, mas que havia muito tempo deixara de lecionar.
       - No comeo, minha filha ficou um pouco preocupada, quando soube que voc adotava um mtodo pouco convencional de ensino, que misturava a pedagogia tradicional
com brincadeiras. Porm, hoje, est convencida de sua eficincia como professora. Charlotte no cansa de me contar como a habilidade espacial de Henry melhorou,
junto com seu progresso na leitura.
       - Gostamos de estimular as crianas em diversas disciplinas, para que descubram os talentos que tm. Quando elas vem que conseguem fazer uma coisa bem-feita,
desenvolvem a auto-estima.
       -  Pelo que minha filha me falou, voc aconselha os pais a reservar vaga na escola assim que a criana nasce.
       - No  bem assim. - Jodi deu risada. - Mas acho que a reputao daquele estabelecimento de ensino tem crescido graas  divulgao boca-a-boca. Estamos acima
do limite exigido pela prefeitura para manter a escola aberta. E, pelo jeito, vamos continuar assim. A menos, claro, que a fbrica seja fechada.
       Jodi olhou para Graham Johnson, com uma expresso de dvida.
       - A deciso final sobre esse assunto cabe a Lo Jefferson, minha querida. Por isso, convidei-o para vir aqui hoje, jantar conosco. Foi idia de Nigel, e eu
tambm achei que seria bom se vocs tivessem um encontro informal. Tenho certeza de que Lo Jefferson, como empresrio, no parou para pesar as conseqncias que
o fechamento da fbrica teria sobre a escola da vila.  claro que a possibilidade de ele escolher justo nossa fbrica existe. Pelo que sei, Jefferson s pretende
fechar duas das quatro fbricas que comprou.
       Jodi no o escutava. Desde o momento em que o ouvira dizer aquela frase assustadora: "convidei-o para vir aqui hoje, jantar conosco".
       Lo Jefferson viria! Seria obrigada a sentar-se  mesa com ele!
       Ficou hirta de medo, com um n no estmago, quando ouviu o toque da campainha. Graham foi atender.
       Desesperada, Jodi olhou para a janela, com vontade de fugir, mas era tarde demais. Graham j estava de volta  sala, acompanhado por Lo Jefferson, o homem
com quem passara a noite. Seu amante!
       Lo seguia o anfitrio, que lhe mostrava o caminho. Graham o apresentou aos demais presentes, mas, assim que entrou, Lo no conseguiu escutar mais nada.
Furioso, e sem acreditar no que via, olhou para Jodi.
       Ela estava de p, perto da janela, e encarava-o com uma expresso de mrtir, sem dizer uma palavra, os olhos arregalados de angstia.
       O que significava aquilo? O que ela estaria fazendo ali? Lo percebeu ento que Graham a apresentava como a professora da escola local.
       Lo se sentiu como se estivesse no meio de uma farsa. Sabia que no campo as coisas eram diferentes, mas no ao ponto de uma professora de vila se transformar,
com o cair da noite, em garota de programa.
       De repente, um ataque silencioso de cime se apossou dele, e Lo sentiu uma antipatia gratuita pelo homem ao lado dela.
       -  E este  Nigel Marsh, meu assistente e primo de Jodi - explicou Graham Johnson.
       O primo dela. Aliviado, Lo livrou-se daquelas emoes ridculas.
       - Uma pequena surpresa para voc - cochichou Nigel ao ouvido de Jodi, enquanto Mary conversava animadamente com Lo.
       Jodi deu um sorriso sem graa.
       - Jodi, posso servir-lhe um drinque?
       - Eu no bebo, Graham, obrigada. - Jodi corou ao ver o olhar que Lo lhe lanava.
       - Jodi sempre foi certinha demais, mesmo antes de ser professora - informou Nigel, bem-humorado. - No sei como podemos ser da mesma famlia. Vivo dizendo
para Jodi que ela precisa se soltar mais, aproveitar mais a vida.
       Jodi no queria tornar a encarar Lo, mas no conseguia evitar. Para sua surpresa, viu-o se aproximar, quando Nigel passou a falar com Mary.
       - Como pode mudar de personalidade assim da noite para o dia?
       - Por favor - Jodi implorou, desesperada, temendo que algum escutasse.
       Mas, graas aos cus, os demais haviam se afastado.
       - "Por favor"? Parece que j ouvi voc dizer isso ontem.
       - Pare. Voc no est entendendo,
       - No estou mesmo. Agora, diga-me uma coisa: o diretor da sua escola sabe que voc  uma garota de programa? Sei que professores ganham pouco, mas nunca imaginei
que pudesse complementar o oramento com esse tipo de aula particular.
       -  No, voc... - Jodi pretendia dizer a Lo que tudo no passava de um lamentvel engano, mas o tom veemente dele chamou a ateno de Nigel, que interrompeu
a conversa com Mary Johnson e olhou para a prima, preocupado.
       Sabia o quanto ela era passional em relao  escola, mas no esperava ouvi-la discutir com Lo Jefferson assim to cedo. No causava uma boa impresso.
       No entanto, antes que Nigel tivesse tempo de interferir com algum comentrio diplomtico, Mary anunciou que o jantar seria servido.
       - Est simplesmente delicioso! - exclamou Nigel, comendo o pudim. - Morar sozinho  bom, mas nada como uma comida caseira. O microondas  prtico, mas quando
se cozinha em forno convencional tudo fica bem mais saboroso. Vivo dizendo isso para Jodi, porm ela no se anima em cozinhar.
       - Se gosta de comida feita em casa, aprenda a faz-la - respondeu Jodi, com firmeza. - Na escola, insisto com os meus alunos, tanto os meninos como as meninas:
todos tm de ter noes bsicas de culinria.
       - Acho timo que tenham - apoiou Mary, virando-se para Lo.- Jodi fez maravilhas com os alunos. Quando comeou, havia to poucos que a escola corria o risco
de fechar, mas agora os pais fazem reserva para os filhos assim que eles nascem, para garantir a vaga.
       Jodi enrubesceu, mais uma vez, quando Lo virou-se para olh-la.
       A noite toda fora uma verdadeira tortura e, pelo visto, estava longe de terminar.
       -  mesmo. Jodi  apaixonada pela escola. - Nigel sorriu.
       - Apaixonada?
       Jodi sentiu o corpo tenso de angstia ao ouvir o tom cnico de reprovao com que Lo falara aquela palavra. Ser que pretendia entreg-la?
       - Oh, claro, tenho certeza de que ela ...
       - Eu acho - disse Granam, com tranqilidade - que Jodi est preocupada com o que poderia acontecer com a escolinha, se voc decidir fechar a fbrica de Frampton.
       Ao notar o aborrecimento de Lo, Graham sacudiu um pouco os ombros.
       - Todo mundo sabe que pretende fechar uma ou duas das fbricas, Lo, isso no  nenhum segredo. A notcia foi publicada nos cadernos de economia dos jornais,
e a declarao foi atribuda a voc.
       - Ainda no decidi nada sobre isso.
       - Quer dizer que est pensando em fechar nossa fbrica? - Jodi no pde deixar de indagar.
       Lo franziu a testa. Durante toda a refeio, Jodi no lhe dirigira uma palavra sequer. Na verdade, nem ao menos o fitara, mas ele sentia no ar tanto a tenso
como a hostilidade dela.
       O que mais o zangava era ver como Jodi era capaz de desempenhar to bem o papel de uma professora dedicada, quando Lo sabia muito bem quem ela era.
       Deveria ser uma pessoa muito irresponsvel. Como poderia cuidar da educao e do desenvolvimento emocional de crianas? Deveria ser uma garota muito inteligente,
para conseguir enganar a todos daquela maneira, conquistando o respeito, a credibilidade e a admirao dos moradores da vila.
       Lo tentava se convencer de que a intensidade de suas emoes era uma reao muito natural diante da descoberta da dupla personalidade de Jodi. Se ele contasse
a verdade sobre ela... Mas claro que no faria isso. Afinal, o comportamento dele tambm no fora dos mais louvveis.
       Mas por que Jodi fizera aquilo? Por dinheiro, talvez, como imaginara a princpio? Porque gostava de viver perigosamente? Porque queria ajudar Jeremy Discroll?
Por algum motivo, Lo considerava a ltima hiptese a mais difcil de aceitar.
       Jodi percebeu a expresso de desprezo de Lo. E se ele contasse sobre o que houvera? Se Nigel tivesse lhe acenado com a mnima possibilidade de Lo comparecer
ao jantar, ela no teria ido, por nada neste mundo.
       Estava to ensimesmada que mal conseguia respirar, temendo que Lo revelasse algo. Mas o que acontecera entre eles tambm no contava nenhum ponto a favor
dele. Nesse jogo, os dois eram perdedores, embora Lo, como homem, tivesse uma desculpa secular a seu favor. Poderia dizer que ela o provocara, que fora uma tentao
 qual no pudera resistir.
       Logo terminaria o semestre escolar. Jodi costumava ficar um pouco triste nessa poca do ano, sobretudo antes das frias de vero, quando os alunos mais crescidos
deixavam o jardim-de-infncia. Mas, no momento, Jodi no via a hora de ter um pouco de tranqilidade e desaparecer.
       Alguns amigos da universidade a haviam convidado para uma longa caminhada nos Andes, mas Jodi recusara o convite. Agora, se arrependia. Na ocasio, afirmara
que pretendia passar um perodo a ss, decorando sua casinha e arrumando o jardim. Tambm tinha a inteno de deixar a escola ainda mais bonita, uma das coisas que
lhe dava mais satisfao.
       Mas, graas a Lo Jefferson, tudo mudara, e os pequenos prazeres que alegravam sua vida ficaram, de um momento para o outro, envoltos por uma nuvem negra
de culpa.
       - Bem, ficaremos muito desapontados se voc decidir fechar justo nossa fbrica - Graham dizia. - Somos uma pequena comunidade rural, e no ser fcil criar
novas vagas para absorver os desempregados, embora eu compreenda seu ponto de vista. Sei que a fbrica de Newham fica muito mais perto do centro distribuidor.
       - Pois , tudo  uma questo econmica. No existe mercado suficiente para tantas fbricas do mesmo produto.
       Jodi sentiu de repente que j ouvira demais, e a paixo desenfreada que nutria pela escola se sobreps  vergonha que a fizera permanecer calada at aquele
instante.
       - O mercado absorvia muito bem o produto at voc entrar em cena. - Jodi, irritada, se virou para Lo. - Seria mais honesto admitir que a nica questo econmica
em jogo so seus prprios lucros. Isso sem falar nas vantagens que voc teria com a reduo dos impostos. Ser que no imagina os problemas que ir causar? As pessoas
que vo ficar sem emprego, os lares que ir destruir? Tenho crianas na escola cujas famlias inteiras dependem da fbrica para seu sustento. Os pais, avs, tios
e as tias trabalham l. Ser que s pensa em dinheiro?!
       O silncio tomou conta da sala, e o impacto que as palavras de Jodi provocaram era visvel. O clima ficou tenso, e Jodi percebeu o olhar de reprovao de
Nigel, do outro lado da mesa, enquanto Graham franzia a testa, preocupado.
       - Todos entendemos como se sente, Jodi - Graham interps, paciente. - Mas no podemos ignorar o fator econmico. Lo est num mercado competitivo e global,
e para que seu negcio continue rentvel...
       - Existem muitas outras coisas na vida alm do lucro - Jodi o interrompeu, sem conseguir controlar a intensidade de seus sentimentos. Agora que havia comeado,
no podia mais parar.
       - Como o qu, por exemplo? - questionou-a Lo. - Como manter as crianas em sua escola para causar boa impresso aos coordenadores? Ser que para voc mostrar
para a Secretaria de Educao o nmero crescente de alunos no significa a mesma coisa do que o retorno de meus investimentos para mim?
       -  Como se atreve a dizer uma coisa dessas?! Eu me preocupo com o futuro das crianas, com a educao delas, a vida delas. Isso  o que importa para mim.
O que voc est fazendo ...
       - ...tentar manter meu negcio. Voc, por outro lado, tem uma viso provinciana e limitada. Preciso partir de um ponto de vista mais abrangente que leve em
conta a conjuntura global. Se eu mantivesse todas as fbricas em operao, acabaria fora do mercado, o que provocaria um desemprego muito maior mais adiante do que
o que vou provocar se fechar duas das fbricas para me manter competitivo.
       - Para voc tanto faz, no  mesmo? - Jodi o desafiou. - No se importa com a misria que provocar.
       Ela sabia que estava indo longe demais e que Nigel e Graham a observavam, constrangidos, mas algo havia se apossado dela. A tenso que sentira durante a noite
toda parecia ter explodido e, no momento, via-se tomada por um impulso destrutivo incontrolvel.
       -  O que me importa so meus negcios. Preciso me manter no ramo.
       -  Isso mesmo. - Jodi curvou os lbios, balanando a cabea. - Lucro... No acha que  imoral o que est fazendo?
       - Voc se atreve a me chamar de imoral?
       Graham, por fim, interveio, um tanto desconcertado:
       -  Jodi, querida, ns todos entendemos sua posio e sabemos como se sente. Mas Lo tem de permanecer competitivo. Tente entender tambm o lado dele.
       - Ah, claro! - concordou Jodi, irnica, enquanto olhava para Lo com desdm.
       Nigel levantou-se, dizendo que j estava na hora de irem embora. No entanto, quando Graham puxou, a cadeira de Jodi, ela no resistiu e se virou para Lo.
       - No final, a balana sempre pende para o lado dos ganhos, no  mesmo?
       - Como voc bem sabe. - Lo tambm se ergueu. Jodi sentiu o rosto queimar,
       - Ah, sim, a propsito... - Lo aproveitou que Mary sara para buscar os casacos dos convidados. - ...pode dizer a seu amigo Discroll...
       Jodi no o deixou terminar a frase:
       - Jeremy Discroll no  meu amigo. Se quer mesmo saber a verdade, eu o detesto quase tanto quanto detesto voc!
       Enquanto vestia o casaco e se despedia de Mary, Jodi notou que tremia. Apressou-se em sair, na frente de Nigel, caminhando em direo ao carro naquela noite
quente de vero.
       Esperou pelo primo ao lado do veculo, com as costas voltadas para a casa, tomada de raiva. S ento comeou a perceber o efeito que o encontro com Lo Jefferson
tivera sobre ela, o choque e os comentrios desagradveis que lhe dirigira na frente de todos.
       Ao ouvir os passos de Nigel se aproximarem, implorou, sem olhar para trs:
       - Leve-me embora daqui...
       - Para onde exatamente quer que eu a leve? Ou ser que posso adivinhar?
       Virando-se, Jodi levou um susto, ao ver que no era Nigel, mas Lo Jefferson.
       - Afaste-se de mim! - avisou-o, furiosa, sem se dar conta de que recuava alguns passos, em uma tentativa de manter-se distante.
       Para Lo, aquela reao exagerada era a ltima coisa que importava.
       - Deixe disso, Jodi. No tem ningum por perto agora.
       - Voc no sabe de nada...
       - No foi o que me falou ontem.
       - Eu no sabia o que eu estava fazendo. Se soubesse, jamais teria... - Estava to descontrolada que sentia a voz e corpo todo trmulos. - ...voc seria o
ltimo homem na face da terra que eu escolheria para compartilhar uma das experincias mais importantes de minha vida.
       Jodi no conseguia raciocinar direito, e nem se dava conta do que estava revelando. Em vez disso, deixou-se levar pelo impulso.
       Lo ouvia o que Jodi dizia, mas tambm era incapaz de compreender o sentido, pois se encontrava, tanto quanto ela, invadido por um turbilho de emoes. Em
vez disso, estendeu-lhe a bolsa, que Jodi havia esquecido na sala de Graham.
       -  Voc esqueceu isto. Seu primo ainda est conversando com Graham e Mary e me pediu que lhe entregasse. Na certa, ele achou que seria uma boa oportunidade
para voc se desculpar pelos comentrios grosseiros que fez.
       - Grosseira, eu?! - Jodi puxou a bolsa da mo dele, com tanta violncia, que a deixou cair o cho.
       Abaixou-se para apanh-la ao mesmo tempo que Lo.
       Ele a tomou nos braos, e a aproximao daquele corpo to familiar provocou nela uma reao instantnea. Jodi o olhou, com os lbios entreabertos, e Lo beijou-a
de leve, como se fosse um doce castigo, envolvente e irresistvel. Em seguida,    largou-a, afastou-se e foi embora.
       Depois de alguns segundos, quando por fim conseguiu parar de tremer, Jodi escutou a voz de Nigel:
       -  Desculpe a demora. - Ele abriu a porta do automvel. - Sente-se melhor agora, depois do desabafo?
       - Como acha que eu poderia me sentir melhor depois de passar tanto tempo com aquele... aquele...
       - Tudo bem, j entendi. Na realidade, todos entenderam como voc se sente Jodi, mas brigar com Lo Jefferson no ajudar em nada. Ele  um homem de negcios,
e voc precisa compreender a situao pelo prisma dele.
       - E por que eu deveria fazer isso? O homem no parece estar interessado em meu ponto de vista.
       - Querida, existe um velho ditado que diz ser muito mais fcil pegar uma mosca com mel do que com vinagre, mas tenho a impresso de que no est em condies
de ouvir conselhos.
       - No, no estou mesmo. Por que as coisas no podem voltar a ser como antes? Quando os Discroll eram donos da fbrica, estava tudo bem.
       - Nem tanto. - Nigel meneou a cabea, resolvendo se calar. J falara demais, e ainda no tinha autorizao para divulgar o que sabia sobre as suspeitas de
fraudes que pairavam sobre Jeremy Discroll.
       - Lo Jefferson  a pessoa mais desagradvel, arrogante e detestvel que j conheci em toda a minha vida, e eu gostaria que...
       Incapaz de ser mais especfica, Jodi mordeu o lbio e olhou pela janela do carro, contente por perceber que j haviam chegado  vila e que logo estaria em
casa.
       Lo caminhava de um lado para o outro em seu novo quarto de hotel. Tivera uma boa idia ao pedir  recepo que o transferisse de sute. A primeira estava
impregnada de lembranas da noite que passara com Jodi Marsh.
       Aquela mulher impulsiva, sensual e irresistvel dividira a cama com ele e, por algum motivo misterioso, transformara-se numa adversria irada, que tivera
a ousadia de acus-lo de comportamento imoral!
       Lo no sabia como conseguira se controlar para evitar um confronto ainda maior. E ela era professora de criancinhas!
       Talvez fosse um pouco ingnuo, mas no conseguia entender o que estava se passando.
       Quanto aos comentrios dela sobre como seus planos de fechar a fbrica afetariam a vida das pessoas...
       Lo franziu a testa. Ser que Jodi achava que ele sentia prazer em demitir os empregados? Lgico que no sentia, mas fatores econmicos eram fatores econmicos,
e no podiam ser ignorados.
       Bem, s esperava que Jodi no tivesse a idia de voltar l aquela noite para lhe fazer uma segunda visita. Se fizesse isso, dessa vez no o encontraria desprevenido,
e ele no iria se expor, como antes.
       De jeito nenhum!
       CAPITULO IV
       Voc me empurrou! - No empurrei!
       Com delicadeza, mas firme, Jodi contornava o conflito que envolvia um de seus alunos mais problemticos, no jardim da escola.
       O pequeno Ben, de sete anos, poderia ser um menino feliz e socivel, no fosse a me, uma mulher ambiciosa em plena ascenso social. O comportamento do garoto
o estava isolando das outras crianas.
       Com diplomacia, Jodi tentara discutir a situao com Myra Fanshawe, a me do menino, mas os problemas de Ben tinham tambm outra origem. Myra tambm fazia
parte do conselho escolar e assumira tal posto por iniciativa prpria, assim que matriculara Ben, quando se mudou para a vila, junto com o marido.
       Amiga ntima de Jeremy Discroll e de sua esposa, Myra deixara bem claro, desde o incio, que teria preferido matricular o filho numa escola particular. Mas,
como os avs de Ben se recusavam a pagar os estudos dele at que tivesse idade suficiente para entrar na escola tradicional na qual, fazia vrias geraes, todos
da famlia estudavam, ela fora obrigada a matricul-lo no estabelecimento pblico.
       Myra conseguiu ser presidente do conselho administrativo, mas vivia criticando o prprio conselho e tambm Jodi, e dando suas opinies de como a escola deveria
ser.
       Havia pouco, perdera uma batalha sobre um mtodo de matemtica que ela queria introduzir, achando que seria muito bom para Ben. Depois disso, fizera questo
de deixar claro que Jodi ganhara uma poderosa inimiga.
       Para proteger Ben, Jodi estimulou o menino a fazer mais amiguinhos, mas isso aumentou ainda mais a raiva de Myra, que no queria ver seu garoto misturado
s crianas simples da vila.
       - Assim que Benjamin conseguir sair daqui, ir conviver com crianas de outro nvel social. J falei isso para Ben, e ele sabe que, por mim, estaria estudando
em uma escola particular. Eu gostaria muito que os avs dele compreendessem as vantagens que o menino teria se sasse daqui. Jeremy e Alison ficaram chocados quando
souberam que cogitvamos matricular nosso filho aqui. Pelo menos agora eu sou presidente do conselho e posso verificar de perto se Ben est recebendo pelo menos
o mnimo que uma educao decente pode oferecer. A mulher do pastor comentou outro dia o quanto a escola melhorara, depois que eu entrei para o conselho.
       Jodi sentia pena do garoto e ficava espantada com a incapacidade de Myra de perceber os sentimentos dos outros. Na verdade, Ana Leslie, a mulher do pastor,
dissera a Jodi que achava Myra insuportvel e autoritria.
       Faltando apenas pouco tempo para terminarem as aulas, era natural que as crianas ficassem ansiosas, pensava Jodi, ao caminhar para a sala dos professores.
       Quando o sino tocou, ela j estava to absorta em seu trabalho que quase conseguira tirar Lo Jefferson da cabea. Quase...
       Lo estremeceu, quando o celular tocou. Seguia a caminho de uma reunio com o contador da fbrica de Frampton, motivo da acalorada discusso que tivera com
Jodi na noite de sbado.
       Ao ver que o nmero do telefone no constava em sua lista de conhecidos, franziu a testa. E se fosse Jodi...
       Atendeu, mas a voz que ouviu era de Jeremy Discroll.
       - Veja bem, meu velho, liguei para voc porque achei que seria uma boa idia se nos encontrssemos. Gostaria de lhe fazer uma proposta. Se voc est pretendendo
fechar a fbrica de Frampton, eu gostaria de compr-la de volta.
       Lo continuava a franzir a testa.
       - Compr-la? - Lo esperava que Jeremy lhe desse alguma informao adicional ou o chantageasse de algum modo. Mas, para sua surpresa, ele nem sequer mencionou
o nome de Jodi ou a inesperada visita que ela lhe fizera na cama de seu quarto de hotel.
       - Ns dois somos homens de negcios e sabemos que existem meios de readquirir uma propriedade que foi vendida, com ganhos para ambas as partes.
       Lo permanecia calado.
       Jeremy Discroll sara de frias e estivera no Caribe com a mulher quando o sogro dele fechara o negcio com Lo, e parecia cada vez mais bvio que, por algum
motivo, Discroll no queria consolidar a venda da fbrica de Frampton.
       - Ainda no decidi qual delas pretendo fechar, Discroll.
       - Frampton  a opo mais bvia, qualquer um sabe disso.
       Mas, por trs da aparente segurana dele, Lo conseguia detectar uma certa ansiedade. J estava bem perto da fbrica e queria dar um jeito de terminar logo
com aquela conversa.
       -  Eu ligo para voc assim que tiver tomado minha deciso. - E Lo desligou.
       A conversa com Jeremy Discroll deixou-o intrigado. Por que ele nem ao menos mencionara o nome de Jodi? Discroll no era o tipo de pessoa que perderia uma
oportunidade dessas, se quisesse mesmo chantage-lo. Ainda que no se deixasse chantagear, Lo sabia que estava numa posio vulnervel e que Discroll no hesitaria
em tirar vantagens.
       Contudo, a situao de Jodi era muito pior. Por que ela teria se exposto daquela maneira?
       - Ento est sugerindo que eu feche esta fbrica? - Lo falava com o contador, depois de visitarem todas as instalaes em Frampton.
       - Bem, parece a escolha certa. Newham tem a vantagem de ficar perto do centro de distribuio.
       - O que significa que seria simples convencer um revendedor a fazer dela uma base de distribuio. Com isso, eu poderia consolidar a produo em Frampton
e usar as instalaes de Newham s para distribuir e transportar. Se no desse certo, ainda assim, seria fcil pass-la adiante.
       - Bem, seria uma opo...
       - Alm disso, Frampton tem a vantagem da nova linha de produo.
       - Sim, senhor,  verdade. Parece que um incndio destruiu a antiga linha de montagem. O que me leva a outra questo. Existem duas coisas que parecem no se
encaixar.
       - O qu, por exemplo? - Lo o fitou, curioso.
       - A ocorrncia de dois incndios num curto perodo e algumas irregularidades no sistema de contabilidade. Parece que esta fbrica vinha sendo administrada
pelo genro do dono, que, antes de vir para c, j tinha uma reputao suspeita. O Sr. Discroll fora acusado de favorecer prticas que no esto de acordo com as
leis de mercado.
       - Estamos falando de operaes fraudulentas - constatou Lo, sem rodeios.
       - Eu no posso afirmar e, claro, no descobri nenhuma fraude nas contas que me foram passadas. Entretanto, podem haver outras contas paralelas. Sei l, 
apenas um pressentimento, mas algo me diz que alguma coisa est errada.
       Ser que o contador, sem querer, apontara o motivo pelo qual Discroll se mostrava to ansioso por reaver a fbrica de Frampton?
       -  Se o senhor pretende mesmo encontrar um distribuidor para a fbrica de Newham, eu posso indicar uma pessoa.
       - Acho que vou optar por estabelecer um centro de distribuio prprio. Com a tendncia atual de alta dos custos de transporte,  economicamente aconselhvel
manter o controle desse aspecto do negcio.
       - Hum...
       "O que est acontecendo comigo?", Lo se perguntava, sentindo um conflito interno. Estava buscando argumentos para manter em operao a fbrica de Frampton!
Teria se deixado influenciar pelas opinies passionais de uma mulher que no entendia nada de negcios, embora soubesse como ningum como agradar um homem?
       J estava quase na hora do almoo, quando se despediu do contador, no porto da fbrica, e Lo lembrou-se de ter visto um bar na vila onde decerto conseguiria
fazer uma refeio decente.
       Se planejava manter em funcionamento a fbrica de Frampton, teria de passar um bom tempo ali, pelo menos alguns meses. Teria de encontrar uma casa para morar.
       O bar ficava do lado oposto  igreja. Entre os dois, a praa e, ao lado, a escola.
       A escola dela!
       Como era hora do almoo, o ptio se encontrava cheio de crianas,
       Estacionou ao lado do bar e caminhou em direo  entrada principal. Ao fazer isso, uma figura familiar, rodeada de pequerruchos, chamou sua ateno.
       Os cabelos cacheados de Jodi brilhavam, iluminados pela luz do sol. Ela usava uma blusa colorida, e a saia de algodo punha suas pernas  mostra.
       Lo tinha certeza de que ela no o vira. Jodi ria de alguma coisa que um de seus alunos dissera, e a cabea para trs ressaltava-lhe a pele clara do pescoo,
a mesma que ele acariciara e beijara.
       Lo percebeu como a presena dela continuava a afet-lo. Ainda a desejava.
       Jodi parecia  vontade em seu papel, e os garotos estavam felizes a seu lado. De repente, como se pressentisse a presena dele, ela olhou em sua direo,
e Lo estremeceu. A expresso alegre desapareceu de seu rosto, enquanto os olhares dos dois se cruzaram em silncio, diminuindo a distncia que os separava.
       As crianas, como se tambm notassem algo no ar, ficaram quietas e em seguida se espalharam pelo ptio, at sumirem de vista.
       Lo constatou que o salo do bar lotara. Para sua surpresa, pois nem sequer notara o que se passava a sua volta.
       Com o pensamento longe, lembrava-se de Jodi em sua cama e, mais uma vez, perguntava-se o que estaria acontecendo com ele.
       Comeu depressa, sem sentir o gosto. Em sua mente, s via a imagem dela cercada de crianas. Parecia to...
       Sacudiu a cabea, como se quisesse se livrar daqueles pensamentos. Aquele gesto chamou a ateno da garonete, que ficara impressionada com aquele homem sensual
e charmoso, to diferente de seu prprio namorado.
       Depois de terminar a refeio e de recusar uma segunda xcara de caf, para decepo da garonete, Lo se levantou sem se importar com o interesse da jovem.
       Caminhando em direo ao estacionamento, percebeu que o parquinho da escola estava vazio. Os pequenos j deviam ter voltado para as classes.
       "Pelo amor de Deus, ser que no bastam as preocupaes que j tenho?" No fazia o menor sentido aquela sua obsesso por uma professorinha do interior.
       - Bem, no  comum termos muitas casas disponveis para aluguel - dizia o corretor de imveis a Lo. - Por sorte, apareceu um proprietrio interessado em
alugar uma casa em estilo georgiano, antiga e charmosa, nos arredores de Frampton. No sei se conhece a vila.
       - Sim, conheo.
       - Eu mesmo moro l. - O homem sorriu. - No sei se tem filhos, mas, se tem, recomendo a escolinha local. Jodi Marsh, a professora,  maravilhosa.
       - Eu conheci Jodi.
       - Mesmo? - O corretor o olhou, curioso. - Bem, se  amigo dela, no ser difcil ser bem recebido na vila. Jodi  muito querida por todos. Minha mulher nem
quer imaginar o que pode acontecer  escola se um dia ela for embora daqui. Ns todos admiramos a maneira como Jodi lutou para manter o estabelecimento funcionando
e para levantar fundos e adquirir o terreno ao lado, onde Jeremy Discroll queria construir sei l o qu. Jeremy no gosta dela,  claro, como voc j deve saber.
       Mais uma vez, o corretor fitou Lo, especulando, mas ele resolveu no fazer nenhum comentrio a respeito das opinies equivocadas que aquele homem tinha sobre
Jodi. Estava ocupado demais, analisando o surpreendente comentrio do corretor sobre a antipatia de Jodi por Jeremy Discroll;
       - Se quiser, posso lhe mostrar a casa a que me refiro.
        Por dentro, Lo dizia-se que deveria recusar, que seria loucura morar perto de Jodi Marsh. Mas, por alguma razo, escutou-se responder que sim, que gostaria
de ver o imvel, e aceitou a sugesto do corretor de dirigirem-se para l naquele instante.
       - Pelo jeito, Jeremy Discroll no  muito popular por aqui... - comentou Lo, meia hora mais tarde, quando j estavam em frente da bela residncia.
       - No , no. E, apesar de ser casado, Jeremy tem fama de conquistador. Por aqui, todos sabem que Jodi  uma moa muito direita. Acho que ela deixou bem claro
para ele que no gostava de suas insinuaes.
       Lo se esforava para assimilar aquilo tudo, enquanto o corretor abria a casa.
       - Esta residncia foi construda para o filho do dono de uma antiga fazenda que existia aqui. Mais tarde, foi tombada pelo Patrimnio Histrico. Como poder
notar, todos os detalhes de sua decorao interna foram mantidos,  uma raridade. Se eu tivesse dinheiro, faria uma oferta para compr-la. A antiga moradora morreu
h algumas semanas,  possvel que os herdeiros a coloquem  venda. Mas, enquanto cuidam do inventrio, pretendem mant-la alugada. Vamos entrar?
       Como o corretor dissera, a casa era mesmo uma raridade, e Lo tambm teria vontade de compr-la, se estivesse procurando um lar permanente. Por ora, achava
que tivera sorte de encontrar um lugar to aconchegante por um preo razovel.
       Entretanto, ao seguir o corretor at o escritrio imobilirio para assinar o contrato, ia pensando em algo bem diferente: nas informaes que obtivera a respeito
de Jodi.
       Por que todos pareciam achar que ela era um exemplo de virtudes e s ele via a realidade? No podia estar errado a respeito dela, podia?
       Mais tarde, naquele dia, de volta ao hotel, comeou a ponderar. No era sensato crer que todos estavam errados, e s ele certo a respeito de Jodi. No entanto,
nada mudava o fato de ela ter invadido seu quarto.
       Jodi se esforava para sorrir, quando os pais dos alunos comearam a chegar para buscar as crianas. A fbrica operava em turnos, o que significava que eles
se revezavam na tarefa de levar e buscar os filhos.
       Ouviu uma conversa sobre o possvel fechamento da fbrica e como eles pretendiam se organizar para impedir que isso acontecesse.
       - Temos de fazer alguma coisa - um deles protestou, furioso. - No podemos ficar de braos cruzados enquanto perdemos nossos empregos, nosso ganha-po.
       - Precisamos fazer uma manifestao.
       Uma manifestao! Bem, Jodi no podia culp-los por desejarem tornar pblico um problema to srio. Tomaria a mesma atitude se um dia algum tentasse fechar
sua querida escola.
       Franziu um pouco a testa. Aqueles pais eram os mesmos que a haviam apoiado quando lutara para manter a escola funcionando e para levantar o dinheiro com o
qual haviam adquirido o terreno ao lado, onde hoje ficava o parquinho. O mnimo que poderia fazer era apoi-los, agora que se viam em dificuldades. Seus sentimentos
em relao a Lo Jefferson no poderiam interferir nessa sua deciso.
       Deu meia-volta e se juntou ao grupo.
       -  No pude deixar de escutar o que diziam sobre a necessidade de fazerem manifestao contra o fechamento da fbrica. - Jodi respirou fundo e continuou:
- Quero que saibam que podem contar com meu apoio.
       - O qu? Publicamente?
       - Isso mesmo - confirmou Jodi, sem titubear.
 medida que falava, a imagem de Lo Jefferson voltou-lhe  memria, com aquele olhar gelado dele, sentado  mesa, durante o jantar de Mary Johnson.
       - Lo, ser que posso falar com voc um minuto? Ele parou no meio do saguo do hotel ao ver Nigel Marsh caminhar em sua direo.
       - Posso dar uma palavrinha com voc?
       Lo arqueou uma sobrancelha. Nigel parecia aflito, com algo a incomod-lo, mas ao mesmo tempo, determinado a falar.
       Levantando a manga do palet, Lo consultou o relgio, antes de responder, sem rodeios:
       - Posso lhe dar dez minutos.
       Nigel pareceu aliviado.
       - Obrigado. S queria falar a respeito da minha prima, Jodi, que voc encontrou durante o jantar de Graham Johnson.
       - Voc se refere  professora da escolinha? - indagou com ironia
       -  Sim. Olhe, sei que ela foi um pouco exagerada e que...
       - Sua prima tem uma personalidade muito forte, Nigel. E, pelo que pude notar,  muito agressiva para o meu gosto.
       - No  nada pessoal.  que a escola significa muito para ela. Jodi lutou tanto para que fosse para frente e desse certo!  o tipo de pessoa que defende causas
perdidas, que tem atrao por cachorrinhos abandonados. Lembro-me de quando ramos crianas e ela estava sempre cuidando de algum, fazendo esse papel maternal.
Sei que Jodi passou dos limites naquele jantar, mas no esperava     encontr-lo l. Acho que o fato de ter ido ao hotel na vspera para explicar tudo a voc e ter
fugido sem dizer nada...
       Nigel parou de repente, sentindo-se desconfortvel, consciente de ter falado mais do que deveria. Tarde demais.
       - Ser que poderia me explicar melhor a ltima parte de sua frase?
       Mais desconcertado que nunca, Nigel revelou tudo o que sabia.
       Lo esperou at que ele terminasse, antes de perguntar:
       - Quer dizer que Jodi, sua prima, pretendia falar comigo, em minha sute, para defender a escola e me convencer a desistir de fechar a fbrica?
       - Sei que agi errado, que no deveria t-la encorajado a fazer isso. Se Graham descobrir, vai reprovar minha atitude, mas eu no podia ficar de braos cruzados.
Tinha de fazer alguma coisa. Se voc a conhecesse melhor, poderia compreender.
       Lo a conhecia e compreendia muito bem. Agora sabia por que Jodi estivera em seu quarto, mas por que entrara em sua cama? Ser que pedira aquela bebida para
ganhar coragem e errou na dose? Ento...
       Nigel continuava falando, e ele se esforava para ouvi-lo.
       - Jodi precisa de um tempo. Lutou muito pela escola. Primeiro, para melhorar a qualidade de ensino, depois, para ganhar mais alunos, e h pouco, para
comprar
aquele terreno ao lado e impedir que casse nas mos de Jeremy Discroll.
       - J ouvi comentrios.
       - Jeremy no gostou nada de perder aquele terreno, e eu avisei Jodi que ela havia arranjado um inimigo perigoso. No  segredo que ningum gosta muito dele
por aqui. Jodi no o suporta, e no a culpo por isso.
       Em silncio, Lo tentava assimilar tudo aquilo. Nigel Marsh era a segunda pessoa a dizer-lhe que Jodi no gostava de Jeremy Discroll.
       Isso significava que talvez ele a tivesse interpretado mal em, pelo menos, dois pontos. Sim, mas isso ainda no explicava o motivo daquele comportamento,
da sensualidade extraordinria com que Jodi se insinuara em seu leito.
       Se aceitasse a opinio geral, teria de concluir que o comportamento de Jodi fora anormal para seus padres. Assim como o dele, foi forado a admitir.
       - Sei que Jodi foi longe demais naquele jantar, mas em sua defesa tenho a dizer que ela tem uma certa razo. Sem a fbrica...
       - ...a querida escola dela seria obrigada a fechar as portas.
       -  Somos uma rea rural, Lo, e seria muito difcil recolocar os trabalhadores que perderiam seus empregos. Isso significa que, para conseguir trabalho, as
pessoas teriam de se mudar daqui. Claro, como conseqncia, a escola acabaria fechando. Mas Jodi no est preocupada s com isso. Ela  muito sensvel e se interessa
pelo problemas dos outros, e, na verdade, a vontade de ajudar a motiva mais do que sua prpria carreira.
       Nigel encarou Lo.
       - Para voc ter uma idia, fiquei sabendo por acaso que Jodi recebeu uma proposta de trabalho em uma escola particular, com um salrio muito mais alto. Teria,
inclusive, direito a bolsas de estudo para os filhos dela, caso viesse a t-los um dia.
       - Mas no est envolvida em nenhum relacionamento, est? - Lo no pde deixar de questionar.
       - No. Minha prima  uma garota muito reservada, e relaes sem compromisso no fazem o estilo dela. E, pelo menos por enquanto, ainda no encontrou ningum
com quem quisesse se comprometer.
       -  uma mulher de carreira.
       - Sem dvida ela gosta muito do que faz. - Nigel deu de ombros. - Acho que j tomei muito de seu tempo. Espero que no tenha se incomodado com essa conversa
toda sobre minha prima.
       - Sou meio italiano. Os laos de famlia esto em meu sangue.
       Para ser franco, Lo admirava Nigel Marsh por tentar defender a prima. Mas aquela conversa o deixara com algumas dvidas que s poderiam ser respondidas por
uma pessoa: Jodi.
       No entanto, ser que ela responderia? E se arriscasse fazer essas perguntas, no correria o risco de ficar ainda mais envolvido por ela?
       CAPITULO V
       Lo franziu a testa ao ouvir o barulho de passos, na pequena alameda que circundava sua nova casa. Mudara-se naquela manh e contratara uma equipe de limpeza
para deixar tudo organizado, antes de se instalar.
       No momento, caminhava pelo jardim, e notou que o imvel precisaria de uma boa reforma para que pudesse recuperar seu antigo esplendor.
       Passara os ltimos dias em Londres, participando de uma srie de reunies relativas  compra das fbricas e o futuro delas. As autoridades decidiram abrir
um inqurito para apurar as irregularidades financeiras na fbrica de Frampton, em especial durante o perodo em que fora administrada por Jeremy Discroll.
       Se decidisse mant-la em funcionamento, teria de resolver antes o que fazer com as outras trs.
       Uma delas, que abrigava as antigas instalaes, com uma linha de produo obsoleta e mo-de-obra desqualificada, seria a primeira a fechar as portas.
       Quanto s outras trs, se optasse por manter a produo de Frampton, teria de vender aquela que ficava perto do complexo virio, ou ento transform-la em
uma  unidade distribuidora.
       Se fizesse isso... Lo ficou tenso, ao perceber que os passos se aproximavam. Quem quer que fosse, havia entrado no jardim e... sim, agora conseguia ver bem.
       "Jodi Marsh!"
       Jodi o viu no mesmo instante em que Lo a olhou. Ficou paralisada. O que Lo Jefferson estaria fazendo no jardim da casa de Ashton, a residncia de seus sonhos?
Desde a primeira vez que Jodi a vira, imaginou que um dia seria sua.
       Mas, antes que ela tivesse tempo de se recompor do susto, Lo veio em sua direo, junto ao porto, bloqueando sua passagem.
       -  Gostaria de conversar com voc - ouviu-o dizer, com frieza.
       Jodi o encarou, rezando para que Lo no percebesse o estado em que ficara, por causa dele.
       - Bem, eu com certeza no quero falar nada com voc.
       Mentirosa! Mentirosa!, a conscincia de Jodi a atormentava, em silncio. O que quer dizer  que falar com ele apenas, no basta!
       Aterrorizada com a possibilidade de ele notar o que estava sentindo, Jodi pensou em fugir, mas Lo segurou-lhe o brao, e ela se viu impelida a entrar no
jardim, no  fora, mas com firmeza.
       - Quer, por favor, parar de me empurrar?!
       Lo fechou o porto. Jodi sentiu-se corar, ao ver o jeito como que ele a olhava.
       Se ousasse falar qualquer coisa a respeito do que fizera, quando estava sob efeito do lcool... Mas, para seu alvio, Lo apenas continuou a olh-la, por
alguns segundos torturantes, antes de indagar:
       - O que voc foi fazer em minha sute?
       Jodi perdeu o flego. Respirou fundo para conseguir juntar foras para responder.
       - Bem, de acordo com voc...
       - No quero que me diga o que eu pensei que estivesse fazendo l. Quero ouvir sua verso dos fatos, Jodi.
       Tmida, ela desviou o olhar.
       - Isso no faz a menor diferena agora, faz?
       - No mesmo? Segundo seu primo, voc tinha ido l para me convencer a no fechar a fbrica de Frampton,
       - Esteve com Nigel?
       Lo notou que a pegara desprevenida.
       - Eu disse a ele, desde o comeo, que era uma loucura, mas ele no me ouviu. - Sem parar nem para respirar, Jodi prosseguiu: - Achei que o encontraria no
saguo, mas ento Nigel me disse que arranjara um jeito de conseguir a chave magntica.
       - Da, voc subiu at minha sute e, enquanto me esperava, pediu um drinque.
       - No. - Jodi negou com veemncia, tanta que Lo no teve a menor dvida de que estava sendo sincera. - Jamais pediria um drinque sem pagar. Pedi para Nigel
me mandar um suco, e ele me disse que pediu coquetel de frutas, mas no... Ora, que importncia tem isso agora?
       - Quer dizer que, enquanto me esperava, tomou o ponche de frutas, que continha lcool e...
       Para Jodi, aquilo j bastava.
       - No quero mais falar sobre isso! Voc no pode me obrigar.
       - Foi para a cama comigo, Jodi. E, pelo que eu ouvi falar de voc, isso no  uma coisa que...
       - Nada disso. De qualquer forma, voc foi para cama comigo, porque eu estava l primeiro, dormindo como um anjo.
       - Jodi, parece que interpretei mal os fatos. Fiz uma idia errada a seu respeito e sobre os motivos que a levaram at meu quarto. Assim sendo, acho que devemos
conversar...
       - No quero conversar nada com voc. No acho que vale a pena falar mais sobre isso.
       - Para voc, talvez no, mas no  assim que penso. No costumo fazer sexo sem compromisso.
       "Meu Deus, ser que aquela tortura jamais ter fim?!" Ela estava pagando muito caro pelo erro que cometera. Caro demais!
       Contudo, antes que conseguisse se conter, viu-se, mais uma vez, tomada pelo impulso.
       - Para sua informao, Lo, nunca tive vrios parceiros e, na realidade...
       Ela parou e ficou em silncio, sentindo o rosto corar de vergonha. No, no podia contar-lhe. Se fizesse isso, Lo faria mais indagaes, e no estava disposta
a respond-las por nada neste mundo. Jamais revelaria o que sentira ao v-lo pela primeira vez no hall do hotel.
       Claro, alguns diriam que tinha sido amor  primeira vista, mas Jodi tinha uma personalidade realista. Era uma mulher moderna, e diria que aquilo tudo no
passava de pura bobagem.
       "Por que ser que estou to irritado, a ponto de querer sacudi-la, para que me escute?", era a questo de Lo, que mantinha o olhar fixo nos lbios de Jodi,
sem conseguir desvi-lo. Lembrava-se de como eles eram quentes e da sensao maravilhosa que experimentara, do gosto e da doura de seus beijos. Tinha vontade de
beij-la de novo, naquele exato momento, ali mesmo.
       Mas ela j estava lhe dando as costas, e caminhava em direo ao porto. O bom senso de Lo lhe dizia que ir atrs dela no seria uma boa idia, ainda mais
porque Jodi deixara bvio que no era isso o que queria. No entanto, entregara-se naquela noite e o desejara. Para Lo, o problema era que continuava a desej-la.
       - Jodi? - chamou-a, tentando pela ltima vez entabular conversao.
       Sem virar para trs, ela sacudiu a cabea.
       - No, eu...
       No pde terminar a frase, pois se viu presa pelos braos de Lo.
       Tentou protestar, mas seu intento foi interrompido por um beijo ardente e apaixonado, que a deixou confusa, causando-lhe vertigem. E em vez de empurr-lo,
chegou ainda mais perto dele movida apenas pela volpia.
       Em algum lugar de seu crebro, Jodi ouviu tocar um sinal de alarme, mas ignorou-o. Lo a estava beijando, e nada mais importava, no haveria o que fosse capaz
de diminuir a intensidade do que sentia, a entrega total, a sensao da boca dele, possessiva e apaixonada, junto a dela.
       - Hum...
       Lo sentiu as batidas aceleradas de seu corao, enquanto Jodi se derretia, abandonando suas defesas e deixando-se envolver pelo abrao dele. Sua vontade
era de carreg-la direto para a cama.
       Mas o canto de um passarinho fez Jodi voltar  realidade e, de repente, com o rosto plido e o corpo trmulo, afastou-se de Lo.
       Como podia ter permitido que isso acontecesse? Sentia os lbios adormecidos, mas resistiu  tentao de umedec-los com a lngua. Estariam assim por sentirem
falta do contato com Lo?
       Jodi detestava a falta de autocontrole. Arfando, virou-se para Lo e disse, com uma voz rouca, como se estivesse sob tortura:
       - No me toque nunca mais. Nunca!
       No momento seguinte, ela desapareceu na escurido, com o peito cheio de dor e autocompaixo. Mesmo assim, quando ouviu Lo cham-la, recusou-se a olhar para
trs.
       Quando chegou em casa, Jodi ainda no havia se acalmado. Na vila, ouvira dizer que a casa de Ashton havia sido alugada, mas jamais imaginaria que o inquilino
pudesse ser Lo Jefferson. Nigel comentara que Lo levaria algum tempo para tomar a deciso final sobre o fechamento das fbricas. Mas por que tinha de morar justo
em Frampton?
       Jodi tinha a impresso de que no havia nenhum aspecto de sua vida que no tivesse sido invadido por aquele homem. Ou nenhum aspecto dela mesma?   .
       Apressada, correu para a cozinha. Nigel tinha ligado, convidando-a para jantarem juntos, mas ela dissera que estaria muito ocupada naquela noite. Na realidade,
temia que o primo tentasse dissuadi-la da idia de participar da manifestao, marcada para a manh seguinte.
       No que se tratasse de um ato ilegal, mas Nigel decerto no aprovaria o envolvimento dela, temendo pelo que pudesse acontecer.
       Jodi gostava muito do primo, eram quase como irmos, e ela sabia o quanto ficaria assombrado se soubesse do que houvera entre ela e Lo. Envergonhava-se de
si mesma. Mas o que a fazia sentir-se ainda pior eram os sonhos que insistiam em    visit-la ao adormecer. Neles, no s revivia tudo o que acontecera, como desejava
mais.
       Engoliu em seco, tentando concentrar-se no que fazia, mas por algum motivo perdera o apetite. Pela comida, pelo menos. Enquanto estivera em p no jardim ao
lado de Lo, olhara para ele com a certeza de que nunca estivera to faminta em toda sua vida...
       Lo acordou com um sobressalto, sem saber direito onde se encontrava. Sonhara com Jodi, e no pela primeira vez. Procurou pelo abajur ao lado da cama e acendeu-o.
A casa tinha sido pintada e cheirava a tinta fresca. Levantou-se e caminhou at a janela, abrindo a cortina para ver o jardim iluminado pelo luar.
       Durante o sonho, lembrara-se de algo que o perturbava. Teria sido impresso sua ou havia algo no corpo de Jodi que indicava ter sido ele seu primeiro amante?
       No, era absurdo pensar uma coisa dessas. Um absurdo total. Jodi se mostrara to desinibida, to apaixonada! Mas e se tivesse razo? E se ela, alm de ter
bebido e cado num sono profundo, fosse uma moa sem experincia alguma?
       Engoliu seco, percebendo a dificuldade que tinha em pronunciar a palavra "virgem" at mesmo em pensamento.
       Mas, lgico, se tivesse sido esse o caso, ela teria feito algum comentrio a respeito. Como o qu, por exemplo? Algo do tipo: "Ah, a propsito, antes de fazer
sexo com voc, eu era virgem"?
       No. Esse no era o estilo de Jodi. Era muito orgulhosa e considerava-se uma mulher independente demais para fazer tal coisa.
       E se fosse mesmo virgem...
       Em nenhum momento, durante aquela noite, ela sugerira que devessem tomar precaues em termos de uso de preservativos. E Lo no estava preparado para tomar
esse cuidado, porque fora pego de surpresa. Isso significava que...
       Lo no conseguiria dormir mais, de jeito nenhum. Quanto  sade de Jodi e a dele, no havia muito com o que se preocupar. Contudo, quanto  possibilidade
de uma gravidez no planejada, era um assunto que deveria estar preocupando Jodi tambm.
       Teriam de conversar sobre isso, e ele insistiria em obter as respostas para suas questes.
       Fechando os olhos, Lo esforou-se para se lembrar de cada detalhe dos momentos que haviam passado juntos. J revivera aquelas cenas dezenas de vezes, mas
agora era diferente. Estava atrs de indcios, sinais que poderiam significar muito e que ele poderia ter deixado escapar.
       Tinham ficado to prximos, e havia aquela sensao forte de t-la apertada ao redor dele, nos momentos de maior intimidade. Mas Jodi no dissera nada, no
dera nenhum sinal. O que Jodi fizera, afinal? De repente, Lo experimentou um desejo enorme de t-la consigo de novo, como se fosse responsvel por ela.
       Jodi era professora de crianas. Deveria ser uma pessoa responsvel!
       Se fosse mesmo virgem at ento, a situao ganharia contornos e implicaes bem diferentes. Talvez ele fosse mais italiano do que supunha, reconheceu, ao
ter o peso da responsabilidade caindo sobre si, como se ele, como homem, devesse proteg-la. Pior ainda, sentia um certo orgulho. Por qu? Por ter sido o primeiro
homem da vida dela? Pela possibilidade de Jodi ter concebido, por acaso, um filho dele? A que ponto chegava seu chauvinismo?
       Sua me ficaria radiante por ser av e por ganhar uma nora que, na certa, ela aprovaria, adorando poder apresent-la aos parentes italianos.
       - Ei! Pare com isso!
       Lo tentava se conter. No fazia o menor sentido pensar numa bobagem daquelas. Alm do mais, era perigoso ficar fantasiando assim.
       Por um momento, chegou a crer que a me teria mesmo procurado aquela benzedeira para encomendar uma poo mgica de amor para ele.
       Tolice. Se havia algum a ser responsabilizado por essa situao toda, esse algum era ele. Afinal de contas, poderia ter resistido a Jodi. Ela era mulher,
e pequena, enquanto ele, um homem, mais forte e mais pesado, poderia t-la contido, se assim quisesse.
       No entanto, no o quis.
       - Tambm, no sou de ferro. Ela estava l, ardente, entregue, irresistvel...
       S de pensar, estremecia dos ps  cabea. Fez uma careta com a reao instantnea de seu corpo, quando se lembrou de Jodi nua.
       Ele a desejava como nunca desejara ningum antes.
       - Oh, cus, como eu a quero!
       Lo ficou sabendo da manifestao quando recebeu um telefonema da estao de rdio, perguntando se ele gostaria de fazer algum comentrio sobre a situao.
Muitas outras ligaes se seguiram, informando-o que seria uma atitude pacfica contra o fechamento da fbrica.
       As reunies para discutir a possvel venda da fbrica que ficava perto da estrada j haviam sido marcadas, mas Lo s poderia ir a Frampton na parte da tarde.
Mesmo assim, conversara com o lder do movimento e combinara um encontro com os trabalhadores, para discutir a situao.
       Embora no estivesse preparado para dar sua palavra final sobre o assunto, j decidira manter a fbrica aberta. A deciso no tinha nada a ver com Jodi Marsh,
claro.
       Quando mais tarde a polcia ligou para informar que pretendia monitorar a situao de perto, Lo disse ter certeza de que seria um ato pacfico.
       Eram quatro da tarde, e ele no conseguiria sair de Londres antes das cinco. Comeou a pensar no que Jodi estaria fazendo naquele instante. Precisava muito
falar com ela. Queria saber se havia uma possibilidade, ainda que remota, de ela ter concebido um filho dele.
       Ansiosa, Jodi olhou por cima do ombro. Juntara-se aos demais uma hora antes, depois da aula. No incio, estava tudo tranqilo, e o lder havia lhe informado
que Lo Jefferson entrara em contato e marcara uma reunio para o dia seguinte.
       Mas, para a surpresa de todos, Jeremy Discroll aparecera cerca de meia hora antes. Primeiro, mandou que abrissem os portes da fbrica para ele. Como os operrios
se recusassem a cumprir sua ordem, alegando que a fbrica j no lhe pertencia mais, ele desceu do carro. Houve um pequeno tumulto, mas Jeremy acabou entrando no
prdio da administrao.
       Continuava l dentro, mas fazia cerca de dez minutos, um carro de polcia se aproximara, seguido por um reprter e um fotgrafo do jornal local.
       O carter pacfico da manifestao cedia lugar a agresso e ao tumulto, quando Jeremy Discroll saiu do edifcio. Um dos manifestantes, a quem Jeremy agredira
verbalmente quando entrara na fbrica, foi em sua direo.
       - No acha que essa baderna vai fazer Lo Jefferson mudar de idia, acha? - Discroll provocava o homem.
       - Ele concordou em nos receber amanh de manh.
       - E acha que ouvir o que voc tem a dizer? Que ingenuidade a sua! Jefferson j decidiu que fechar este lugar, e com razo. Considera esta fbrica invivel,
e eu no o culpo, porque vocs so um bando de preguiosos. Se Jefferson resolveu vender isto aqui foi por culpa de vocs. Todo mundo sabe disso.
       - Isso no  verdade! - exclamou Jodi, inconformada com o que ouvia.
       Jeremy virou-se para olh-la.
       - Meu Deus, voc! Eu deveria ter suspeitado. - Olhou para o jeans e a camiseta de Jodi com lascvia. - No ser nada bom para sua escola, no ? E ento,
a querida escolinha ter de fechar junto com a fbrica, no  mesmo? Pelo jeito conseguirei, enfim, meu terreno.
       Ao dizer isso, Discroll comeou a caminhar em direo a Jodi. Algumas pessoas tentaram impedi-lo, mas ele foi mais rpido.
       Um dos homens tentou proteg-la quando Jeremy se aproximou, mas era jovem demais e bem mais fraco.
       Ela estremeceu ao ver Jeremy empurr-lo para o lado. O rapaz revidou e, de repente, a situao saiu do controle.
       As pessoas gritavam, empurravam, e os policiais saram das viaturas. E, antes que Jodi desse um passo, Jeremy a segurou e a arrastou pelo ptio.
       Jodi tentou escapar, mas ele no permitiu.
       Jeremy aproximou-se de um dos policiais, afirmando que ela o agredira.
       - Insisto que prendam esta mulher. Vou process-la por agresso.
       Jodi tentou protestar, alegando inocncia, mas quando deu por si j estava sendo arrastada para dentro da radiopatrulha, com os flashes do fotgrafo ofuscando-lhe
a vista.
       A delegacia estava cheia. Jodi no acreditava no que acontecia. Um sargento que no a reconhecera comeou a fazer perguntas para fich-la. Ela comeou a se
sentir mal. A cabea doa, estava com muito medo. Seu brao ficara esfolado no lugar onde Jeremy Discroll a apertara.
       - Nome?
       Jodi endireitou a coluna, percebendo que o sargento falava com ela.
       - Ah!... Jodi Marsh.
       Uma coisa era participar de uma manifestao pacfica, mas acabar numa cela de cadeia, acusada de agresso... bem... isso era muito diferente! O que diriam
os pais das crianas, aqueles mais conservadores? Jodi no conseguia nem imaginar. Isso sem falar nas autoridades do governo, ou o supervisor educacional.
       - Com licena, senhor.
       Jodi estava prestes a desmaiar, quando ouviu a voz de Lo atrs dela. A entonao calma dele chamou a ateno do policial, que baixou a caneta e parou para
olh-lo.
       Lo chegara  fbrica bem a tempo de saber, pelos poucos trabalhadores que ainda continuavam reunidos, tudo o que acontecera.
       - Sim, e eles levaram a professora junto - um deles informara, espantando-se com a reao instantnea de Lo, que girou nos calcanhares e saiu correndo com
seu carro.
       - Sou Lo Jefferson, sargento, proprietrio da fbrica.
       O sargento franziu a testa.
       - De acordo com nosso arquivo, a queixa partiu de Jeremy Discroll.
       - Talvez ele tenha se queixado, mas eu sou o dono da fbrica. Poderia me contar o que houve, sargento? Pelo que sei, era uma manifestao pacfica, e eu cheguei
a falar com os operrios hoje pela manh. Combinamos de conversar amanh cedo.
       - Bem, pode ser, senhor, mas o Sr. Discroll telefonou da fbrica e disse que no poderia sair de l porque estava sendo ameaado. Assim que chegamos, houve
um tumulto, e esta jovem aqui tentou agredir o Sr. Discroll.
       Jodi sentiu-se empalidecer, mortificada por aquela mentira.
       - No fiz uma coisa dessas! Foi ele quem me agrediu... - Para seu desespero, percebeu que estava prestes a chorar. As lgrimas escorriam-lhe pelo rosto, como
se ela fosse uma criana.
       - Deve ter havido algum engano - afirmou Lo.
       Embora Jodi no estivesse em condies de se virar para olh-lo, notou que Lo se aproximara e, por algum motivo insano, teve vontade de se atirar nos braos
dele, em busca de proteo.
       - Acontece que conheo muito bem a srta. Marsh. Ela estava na fbrica com meu consentimento, como minha representante - Lo mentiu, com frieza. - No posso
sequer imaginar por que ela agrediria Jeremy Discroll.
       O sargento franziu mais uma vez a testa, intrigado.
       - Meus subordinados disseram que ele insistiu para que a moa fosse presa. Discroll afirmou que pretendia process-la por agresso.
       Jodi soluava.
       - Mesmo? Nesse caso, eu irei process-lo por invaso de propriedade. Posso lhe garantir que ele no tinha permisso para entrar na fbrica, e tenho certeza
de que as autoridades iro querer investigar o que Discroll fazia l. Alguns arquivos de contabilidade desapareceram, e estamos todos muito ansiosos para descobrir
quem os roubou.
       Sobressaltada, Jodi virou-se para Lo.
       - A me de um aluno contou ter visto Discroll sair s escondidas de uma sala que antes era usada para manter estoques. - A voz dela fraquejou, quando Jodi
viu o jeito que Lo olhava para o brao dela.
       - Foi ele que fez isso? - Sem esperar pela resposta, Lo encarou o sargento. - Entendo que tem de interrogar a srta. Marsh,  seu dever. Mas gostaria de saber
se pode deix-la sob minha responsabilidade, at que faa isso. Prometo que no a perderei de vista.
       O sargento olhou para os dois, pensando. Todas as celas estavam cheias. Poderia receber de Lo uma fiana, e, alm disso, no havia nenhum motivo de fato
para manter Jodi ali.
       - Muito bem, senhor. Porm, ela ficar sob sua inteira responsabilidade, e ter de comparecer aqui amanh cedo, para ser interrogada, caso o Sr. Discroll
decida ir adiante com essa histria.
       - O senhor tem minha palavra.
       E, antes que Jodi pudesse se pronunciar, Lo a tomou pelo brao e a levou para fora dali, conduzindo-a pela noite quente de vero.
       Constrangida, ela percebeu que chorava.
       - Foi o susto - ouviu Lo dizer, conduzindo-a para o carro. - No se preocupe, voc ficar bem assim que chegarmos em casa.
       - Gostaria de tomar um banho e trocar de roupa.
       - Posso providenciar o banho, mas as roupas voc ter de buscar em sua residncia. Podemos passar l antes de irmos para a minha.
       - Nada disso. Que disparate  esse?
       -  Ordens do sargento que  a soltou. E prometi lev-la  delegacia amanh.
       - Mas no posso ficar com voc.
       - Sinto muito, Jodi. Ter que ser assim.
       - No agredi Jeremy. Foi ele que...
       - Se ele a machucou, eu... Discroll a feriu?
       S ento, Lo percebeu a reao exagerada que tivera. Chegou a assustar Jodi, e ela j estava assustada demais.
       - Achei que fosse ser uma manifestao pacfica - comentou ele, ao dirigir rumo  vila.
       - E era. Mas Jeremy apareceu e provocou, e perdemos o controle da situao.  mesmo verdade que ele est sendo alvo de investigao?
       - Sim. Mas acho que eu no deveria estar lhe contando isso.
       Quando chegaram ao chal, Lo insistiu em acompanh-la, enquanto ela preparava uma pequena mala de roupas, e Jodi sentiu-se sem foras para discordar.
       O comportamento grosseiro de Jeremy Discroll a deixara com uma intensa sensao de fragilidade, e Jodi lembrou-se de que, quando tivera aquele conflito com
ele, por causa do terreno, Discroll ameaara se vingar. Era um homem perigoso e, pelo menos por aquela noite, ela sabia que estaria mais segura se permanecesse ao
lado de Lo do que se ficasse sozinha em sua casa.
       CAPTULO VI
       Quando foi a ltima vez que comeu, alguma coisa?
       A pergunta prosaica que Lo fez, ao destrancar a porta de sua casa pegou Jodi desprevenida. Esperava ouvir dele uma srie de perguntas incisivas, quem sabe
at hostis.
       Mas o fato de Lo parecer mais preocupado com seu bem-estar do que com qualquer outra coisa era desconcertante. No tanto, porm, para seu alvio e segurana,
quanto  maneira com que assumira o controle da situao difcil em que Jodi se encontrava.
       - Foi na hora do almoo. Mas no estou com fome.
       - Isso porque continua em estado de choque, Jodi. A cozinha fica aqui.
       Em qualquer outra circunstncia, Jodi sabia que ficaria maravilhada com a oportunidade de conhecer a casa de seus sonhos, mas no momento no tinha condies
de absorver nada.
       Talvez Lo tivesse razo, devia ser o estado de choque. Que outro motivo teria para permanecer aptica daquele jeito, permitindo que ele tomasse todas as
decises?
       Deixou-se conduzir at uma cadeira na cozinha, onde se sentou. Lo abriu o armrio e depois a geladeira, insistindo em dizer que o jantar simples que prepararia
iria ajud-la a dormir melhor.
       - Isso me fez lembrar algo - disse Lo, em instantes, ao servia uma omelete. - Acho que ter de dormir em meu quarto, pois  o nico que j tem mveis. Dormirei
aqui embaixo, no sof.
       - No, nada disso. No posso dormir em sua cama.
       - Por que no? - Lo a fitava com malcia. - Afinal, no ser a primeira vez que voc faz isso.
       O sangue subiu-lhe  cabea, e Jodi sentiu o rosto ferver. Suas mos tremiam tanto que teve de segurar a xcara de ch que Lo lhe dera com as duas mos,
para no derramar o contedo.
       Sabia que estava exagerando, mas no conseguia se conter.
       O comentrio dele no foi apenas constrangedor: teve o dom de humilh-la. Uma lgrima ameaou rolar, expondo toda sua fragilidade no momento.
       Jodi aprumou os ombros, lutando para conter o choro.
       - Desculpe-me, Jodi. Eu no devia ter dito isso. - Parou para observ-la, recriminando-se por t-la ofendido.
       Era impressionante como os sentimentos dele haviam mudado, depois de descobrir que estivera enganado sobre ela. A ltima coisa que desejava era mago-la,
mas ainda havia algumas questes entre eles que precisavam ser esclarecidas. E, embora no fosse essa sua inteno no momento, j que o assunto surgira, talvez fosse
uma boa oportunidade para discuti-lo com Jodi.
       - Precisamos conversar, Jodi.
       Ela colocou a xcara no pires.
       - Foi por isso que me trouxe aqui? Para me interrogar? Se pensa que s porque me livrou de passar uma noite na cadeia vou retribuir traindo meus companheiros,
est muito enganado. Pode me levar de volta para a delegacia agora mesmo!
       - Jodi, no quero falar sobre os problemas da fbrica, nem sobre a manifestao.
       Ao v-la com aqueles olhos assustados e desconfiados, Lo perguntava-se o que Jodi diria se soubesse que, por mais que tentasse, no conseguia tir-la da
cabea e que, alm disso, ela era tudo o que importava?
       - J marquei uma reunio com os representantes dos operrios para amanh de manh, na qual pretendo explicar meus planos para o futuro da fbrica e fazer
minhas propostas para eles.
       -  , eu ouvi dizer... Bem, ento sobre o que deseja falar comigo?
       - Deixe para l. Olhe, por que no vai se deitar? Parece to exausta... - Lo curvou-se para ajud-la a se erguer.
       Pressentido a possibilidade de ele vir a toc-la, Jodi se adiantou e se levantou, consciente de que qualquer contato fsico numa hora de tanta instabilidade
seria perigoso demais.
       Esgueirou-se do assento, quase caindo por causa do esforo que fez para evitar roar em Lo. Mas, ao fazer isso, o que mais temia aconteceu. Para evitar que
ela casse, Lo tentou segur-la, e Jodi, desequilibrando-se, caiu no colo dele.
       Sem dizer nada, ela o afastou, empurrando o peito de Lo, que no ousou contrari-la.
       - Voc est bem, Jodi?
       - Sim, estou. - Ela se afastou, para que ele no percebesse nenhum sinal do desejo ardente que a queimava por dentro.
       Lo abriu a porta para Jodi passar. Trmula, caminhou em direo ao hall. Ele a acompanhou at o topo da escadaria. No ousava olhar para Lo, com medo de
ser trada pelos prprios sentimentos.
       -  a segunda porta  esquerda, Jodi. H toalhas limpas no banheiro. Vou buscar sua mala no carro e j volto. Deixarei a bagagem do lado de fora do quarto.
       Lo estacou. No tinha mais dvida. O que sentia por Jodi Marsh era amor! Estava apaixonado, e isso o transformara num homem bem diferente, no qual mal se
reconhecia. Um camarada que se comportava de maneira ilgica, guiado pelas emoes. Algum que, naquele exato momento...
       Ouviu o grito que vinha do andar de cima. Abriu a porta da sala, bem a tempo de escutar um outro, e ento, subiu correndo a escada, de dois em dois degraus.
Avistou Jodi na cama, de olhos arregalados, assustada e ofegante.
       - O que foi, Jodi?
       Um imenso alvio se apossou dela ao ouvir a voz de Lo. Tivera um pesadelo com Jeremy Discroll. Um sonho horroroso, aterrorizante, e acordara com o prprio
grito. Por alguns segundos, quando Lo entrara na sute, acreditara que fosse Jeremy.
       - Eu estava tendo um pesadelo pavoroso... com Jeremy Discroll.
       S de pronunciar o nome dele, Jodi tremia de medo e mal conseguia continuar a falar com Lo, que havia se sentado na beirada do colcho.
       Ela viu as pupilas dele brilhantes e ansiosas, apesar da penumbra do quarto, iluminado apenas pelo luar.
       - Sinto muito se o acordei. - S ento Jodi notou que ele ainda estava vestido.
       Ser que o sof era to desconfortvel que Lo no se arriscara a dormir ou no trocara de roupa por causa da presena dela? Talvez tivesse medo de que o
seduzisse de novo.
       - O que foi? O que h de errado?
       A rapidez com que Lo lera a expresso de Jodi a pegara de surpresa. Depois de tudo o que havia acontecido naquele dia, suas defesas estavam fracas, ou melhor,
tinham desaparecido por completo.
       - Ainda est com suas roupas, Lo. Ficou acordado at agora? Se  porque...
       -   porque a nica cama em que eu gostaria de me deitar j est ocupada e me foi negada. A menos, claro, que voc tenha mudado de idia. E queira dividi-la
comigo.
       Lo sabia que estava fazendo o que jurara a si mesmo que no faria sob circunstncia alguma. Comportava-se como um predador, aproveitando-se da fragilidade
de Jodi e sua momentnea situao de dependncia em relao a ele.
       Todavia, v-la no leito, encolhida de pavor, to desprotegida bastava para que tivesse certeza de que a queria de novo em seus braos, para toc-la, beij-la,
acarici-la.
       Lo murmurou o nome dela, incapaz de conter seu desejo por mais tempo. Tomou-a nos braos, e o som de sua voz desapareceu no ar, calado por um beijo ardente.
       A paixo tomou conta dos sentidos de ambos. Nada mais importava, nada mais fazia sentido, a no ser a volpia a ser saciada. E mais uma vez Jodi se entregou,
sem reservas, s delcias que s Lo sabia lhe proporcionar.
       CAPITULO VII
       Ao colocar o fone no gancho, Lo se permitiu, enfim, dar um sorriso, depois de meia hora de uma conversa diplomtica com a polcia.
       Antes disso, falara, tambm por telefone, com Jeremy Discroll, durante cinco minutos. Fora um dilogo tenso, no qual Lo, determinado, informou-o de sua inteno
de process-lo por invaso de propriedade, caso Discroll acusasse Jodi do que quer que fosse. Ser que ele, Jeremy, tinha alguma evidncia da agresso que dissera
ter sofrido, tal como a marca que Jodi trazia no brao? Jeremy retrucou, tentando contra-atacar, mas no final foi obrigado a desistir.
       Negociar com a polcia fora bem mais difcil. Para comear, o superintendente afirmara, com toda a frieza, que no gostara nada de ter tido de arcar com os
altos custos resultantes daquela manifestao, um dinheiro que faria falta ao oramento, j bem minguado, da polcia. Alm disso, seria obrigado a deixar bem claro
para a populao que no toleraria atos de violncia como aquele.
       Lo argumentara que tudo fora planejado para ser pacfico, tanto que ele mesmo se comprometera a se encontrar com os operrios naquela manh e no pretendia
fazer queixa dos manifestantes. Portanto, o assunto poderia muito bem ser arquivado.
       No final, nenhum manifestante fora preso, Lo acabou descobrindo, Jodi teria sido a nica a ir para a cadeia e a ser indiciada, to s por causa da acusao
absurda de Jeremy Discroll.
       A polcia acabou por concordar que, se Jeremy desistira de acusar Jodi, no havia mais nada contra ela e, nesse caso, no precisaria voltar  delegacia para
prestar depoimento.
       Lo constatou que faltava apenas uma hora para seu encontro com os trabalhadores e que ainda tinha algo delicado e de vital importncia que queria discutir
com Jodi.
       De banho tomado e roupa limpa, Jodi hesitou, no topo da escada. Embora tivesse fingido estar dormindo, percebera a hora em que Lo sara da cama.
       Como pudera incorrer no mesmo erro duas vezes? Afinal, era uma mulher inteligente!
       Estava angustiada com o que poderia acontecer com ela depois que fosse  delegacia, mas o que a angustiava ainda mais eram suas dvidas a respeito do que
sentia por Lo.
       Seus sentimentos por ele... Quando teria a coragem de assumir que aquilo era amor?
       Um pequeno som, algo ente um no e um gemido, retiniu em sua garganta. Se ao menos a noite anterior no tivesse sido to perfeita... Se ao menos a intimidade
com que tanto sonhara no houvesse sido compartilhada com o homem de seus sonhos! Se Lo fosse diferente, se tivesse feito algo que justificasse seu afastamento
dele...
       Olhava para os degraus, distrada, quando Lo apareceu no hall, tirando-lhe o flego e fazendo-a se arrepiar diante da fora da paixo que nutria por ele.
       - Acabei de falar com a polcia.
       - , eu no esqueci de que preciso voltar  delegacia - Jodi se apressou em dizer.
       Com esforo, ela conseguiu forjar uma expresso de orgulho, na esperana de demonstrar que estava preparada para enfrentar o depoimento.
       - No sei bem quais so os procedimentos, mas creio que terei de contratar um advogado.
       -  No ser preciso - Lo a interrompeu, ao ver o rosto plido que Jodi se esforava por disfarar. - Est tudo bem. O chefe da polcia me falou que no h
mais necessidade de voc comparecer.
       Lo, sem saber bem por que, resolveu no contar a ela o papel decisivo que ele tivera nessa deciso. Pareceu-lhe que era o mais sensato a fazer no momento.
       - No tenho de voltar l?
       No era apenas a voz dela que tremia agora, mas o corpo inteiro. Ao perceber isso, Lo quis abra-la, dizendo que no deixaria que nada de mal lhe acontecesse,
que no permitiria jamais que ningum a magoasse. No entanto, conteve-se a tempo, mesmo depois de ter dado vrios passos na direo dela.
       Jodi achou que interpretara errado o que ouvira de Lo.
       - Est dizendo que no vou precisar ir l hoje?
       - No. Digo que no precisar voltar mais l. Acabou, Jodi. No se preocupe mais com isso.
       - Mas... e Jeremy Discroll?
       - Parece que ele mudou de idia e desistiu de indici-la. - Lo se virou para o outro lado logo em seguida.
       No queria de jeito nenhum que Jodi sentisse que lhe devia um favor por ter falado com Jeremy. Sabia muito bem que na vspera a coagira, pelo menos emocionalmente,
a fazerem amor. Quando chegasse o momento de revelar tudo o que sentia por ela, no queria que Jodi se visse pressionada.
       Acreditava ter o direito de explicar o que sentia e aonde havia chegado, apesar de ter lutado muito contra seu corao, em parte porque a princpio a julgara
mal. Porm, no usaria nenhum tipo de chantagem para convenc-la a falar que sentia o mesmo por ele.
       O fato de terem ou no dado origem a um novo ser dentro dela era um outro detalhe, que seria discutido na ocasio propcia. Por enquanto, tudo o que Lo sabia
era que faria o possvel para estar presente na vida dessa criana.
       - Jodi, terei de sair daqui a pouco. Mas antes gostaria de conversar com voc.
       Ela sentiu o estmago se contorcer e uma fria sensao de pavor percorrer-lhe as veias.
       Sabia o que estava por vir, claro. Ele diria que a noite anterior tinha sido um erro.
       Jodi se preparava para o baque que estava prestes a sofrer.
       - Vamos at a cozinha. Fiz caf, e voc deve estar com fome.
       - Entendi que estava atrasado para sair - Jodi tentou protestar, ao seguir Lo.
       - Tenho um compromisso, mas podemos falar enquanto voc se alimenta.
       Jodi sabia que no tinha condies de colocar nada na boca, mas deixou que Lo lhe servisse um prato de leite com cereal e uma xcara de caf.
       -  Quando nos encontramos pela primeira vez, eu a julguei muito mal, cometi um erro grave. - Lo parou, como se buscasse as palavras certas.
       Jodi comeou a ficar mais tensa, na defensiva.
       - Estou preocupado, porque, devido s circunstncias daquele primeiro encontro, ns dois nos esquecemos de nos precaver das possveis conseqncias de nosso
ato e no tomamos nenhuma medida para evitar... - Lo meneou a cabea. - Olhe, o que estou querendo dizer  que, se existe alguma chance de voc estar grvida, teremos
de tomar alguma medida. No quero que voc...
       Grvida! O corao de Jodi parecia querer saltar do peito. Encarou Lo, chocada e muda. "...teremos de tomar alguma medida..." Esforava-se para assimilar
o significado daquela frase. Ser que ele por acaso pensava que, se estivesse grvida, seria capaz de sequer cogitar atentar contra essa nova vida? Jamais concordaria
com algo assim! Jamais!
       Ficou perplexa. Esperava ouvir que o que houvera fora um equvoco, um impulso do qual Lo se arrependera, um encontro sexual, sem nenhum significado maior,
nada srio. No entanto, descobrir que ele se adiantara a ponto de imaginar o que faria se ela estivesse grvida... isso era demais!
       Jodi ficou furiosa e considerou aquela atitude pior do que qualquer coisa que Lo j havia dito ou feito.
       Ele tinha medo do qu, afinal? De ser pai de uma criana que no desejava? De ter de pagar penso ou de ser cobrado de alguma maneira? Que tipo de mulher
achava que ela era?!
       - No existe a menor chance de eu estar... nesse estado, Lo.
       Jodi se perguntava como poderia continuar a am-lo depois disso.
       Ela foi to taxativa que Lo franziu a testa. Ser que se precipitara ao concluir que Jodi, s por ser inexperiente, no se precavera contra uma possvel
gravidez?
       Contudo, quando deu por si, Lo ouviu-se dizer com insistncia.
       - Mas aquela noite que passamos juntos foi sua primeira vez e...
       - Com conseguiu descobrir isso?! - Irritou-se ainda mais, por ter, sem querer, confirmado a suspeita dele. Sem esperar pela resposta, continuou: - Bem, o
fato de eu ser... de ter sido minha primeira vez no quer dizer que engravidei.
       Jodi se levantou e saiu da cozinha.
       - Vou pegar as minhas coisas e irei para casa agora mesmo. E nunca mais quero v-lo de novo! Desde que veio para Frampton, s trouxe sofrimento e tristeza
e  transformou a vida de todos num verdadeiro inferno, Lo Jefferson. E, para seu governo, fique sabendo que, se eu tivesse um filho, jamais o obrigaria a carregar
o fardo de ter um pai como voc!
       - Tem certeza de que est bem?
       Indignada, Jodi observou Lo abrir a porta do carro para ela. Seria muito humilhante aceitar que a levasse para casa, depois de tudo o que acontecera entre
os dois.
       - Sem dvida ficarei melhor aqui sozinha do que se ficasse na sua residncia, como ontem, no concorda? - provocou-o, j que Lo insistira em carregar a mala
at a entrada e esperou para que entrasse em segurana.
       Cedendo  tentao de v-lo sair, a distncia, dirigindo o automvel, Jodi sentiu um frio no estmago, temendo por seu futuro e irritada consigo mesma.
       Era mesmo madura demais para se deixar levar por esse tipo de confuso emocional.
       Ao se afastar da casa de Jodi, Lo percebeu que estava tenso, com o maxilar travado.
       A ltima coisa que gostaria de fazer no momento era sentar-se  mesa de negociaes para conversar com os operrios da fbrica. Em vez disso, queria pegar
Jodi nos braos e tentar explicar como seria sua vida sem ela.
       Mas isso haveria de ser demais para quem prometera no fazer nenhuma chantagem emocional, concluiu com uma careta. No entanto, os comentrios de Jodi, dizendo
que no o aceitaria como pai de um filho dela, magoaram-no, e muito. Por pouco Lo no falou que a histria que ouviria seria bem outra, se ela se permitisse ouvir
a voz do prprio corpo.
       - Porque no tenho a menor dvida, Jodi Marsh! Voc me quer!
       Para seu espanto, Lo percebeu que falava sozinho dentro do veculo.
       - No   toa que o amor  considerado uma espcie de loucura.
       Mais afetada por tudo o que acontecera do que gostaria de admitir, Jodi  sentiu-se exausta. Costumava ter energia de sobra, mas nos ltimos dias sentia-se
fisicamente pssima.
       Ao chegar a seu chal, subiu a escada com inteno de pegar algumas roupas para lavar. Porm, ao ver a cama em seu quarto, no resistiu.
       Acordou com o som da campainha. Ao ver que dormira vestida, desceu, ainda tonta de sono, com o pulso acelerado, temendo que Lo surgisse a sua frente.
       Depois da noite maravilhosa que passaram juntos, ficara muito triste ao descobrir o desespero dele em deixar bem claro que no queria nada com ela.
       Mas no era Lo que estava ali, e sim Nigel. Enquanto abria a porta para o primo entrar, viu o jornal que ele sacudia.
       -  Voc saiu na primeira pgina! Ainda no leu as notcias?
       Jodi pegou o peridico da mo dele e deu uma olhada, sentindo-se corar de vergonha quando viu sua foto, no momento em que a polcia a prendera.
       - Eu j estava me preparando para tirar minha prima da priso - brincou Nigel, acompanhando-a at a pequena cozinha. - Mas, pelo que eu ouvi dizer, Lo chegou
l primeiro.
       - Quem lhe contou isso?
       - Telefonei para a polcia. O sargento deu a entender que Lo Jefferson deve ter feito a maior presso para que Jeremy Discroll desistisse de abrir inqurito
contra voc.
       - Desistir? Mas Lo me disse que Jeremy tinha mudado de idia, s isso.
       -  S se foi depois de ouvir Lo ameaar process-lo, caso mantivesse a denncia. Parece que Lo ficou mais de meia hora ao telefone, para convencer a polcia
de que no queria registrar nenhuma queixa contra voc, nem contra os funcionrios. Pelo visto, querida priminha, Lo se preocupa demais com seu bem-estar, caso
contrrio no teria se dado ao trabalho de fazer tudo isso para defend-la. Ser que estamos diante de mais um romance clssico sobre dois adversrios que acabam
se apaixonando?
       Mas, ao ver a expresso de Jodi, desesperada e branca como cera, Nigel interrompeu a brincadeira.
       - Voc est bem? - indagou, preocupado.
       - Estou...
       - Quer sair para jantar hoje?
       - No, Nigel, tenho de que trabalhar um pouco, preparar umas coisas para a aula de segunda-feira. Obrigada.
       Nigel estava quase chegando  sada, quando se virou.
       - Lo se reuniu hoje de manh com o pessoal da fbrica. Ele adiantou alguma coisa para voc sobre o teor dessa conversa?
       - No. Por que deveria?
       -  Jodi, tem alguma coisa errada. No est em seu normal, querida. O que...
       - No tem nada de errado comigo, Nigel. Estou cansada, s isso.
       Sentia remorso por ter de mentir para o primo, que era tambm seu melhor amigo. Entretanto, no tinha alternativa.
       Um silncio perturbador seguiu-se a sua resposta, antes de Nigel girara a maaneta.
       Jodi observou-o partir. Fora seca com ele, sabia disso, e teria de se explicar e pedir desculpas. Faria isso mais tarde. Por ora, no tinha a menor condio
de fazer nada racional. Tudo o que queria era pensar em Lo e naquilo que Nigel lhe revelara.
       O fato de saber que Lo interferira em seu favor com autoridades a confundira. Afinal, ele dera a entender que o superintendente lhe telefonara e que a deciso
de liber-la do depoimento partira da polcia, apenas.
       Saber-se devedora de um favor a Lo a incomodava. Isso no mudava nada o que ele lhe dissera. De jeito nenhum. Jamais o perdoaria por ter dito o que disse.
       De qualquer forma, teria de agradecer-lhe pelo que havia feito, e seria melhor tirar esse fardo das costas o quanto antes. Tensa, decidiu subir para tomar
um banho e trocar-se.
       Lo viu quando Jodi se aproximou de sua casa, caminhando pela calada que dava na porta principal. Estava sentado na sala que usava como escritrio e acabara
de ter uma conversa telefnica com seu novo scio na empresa de distribuio que pretendia montar.
       Como informara aos representantes dos trabalhadores na fbrica de Frampton, decidira mant-la em operao, mas caberia a eles provar que tomara a deciso
certa. Esperava ver a produo crescer, para garantir sua competitividade no mercado internacional.
       Apesar de ser um dia quente de vero, Jodi trajava uma roupa formal, um conjunto preto de cala e jaqueta sobre uma camisa branca.
       Lo, ao contrrio, pusera-se bem  vontade depois de chegar do trabalho. Mesmo assim, Jodi ficou impressionada com sua aparncia, to mscula, quando ele
abriu a porta para receb-la, antes que tocasse a campainha.
       Por que tinha de se sentir daquele jeito sempre que o via? O amor por ele ficara abafado pela raiva provocada pelas palavras to insensveis que Lo proferira
aquela manh.
       Talvez para ele, um homem de negcios poderoso, uma criana que no fazia parte de seus planos fosse um problema a ser eliminado, mas Jodi nem sequer cogitava
a possibilidade de interromper uma gestao, mesmo que levasse em conta a probabilidade, ainda que remota, de estar grvida. Afinal, mentira ao dizer para Lo que
tomara os devidos cuidados para no engravidar.
       -  Nigel foi me visitar e disse que devo agradecer a voc pelo fato de no ter sido intimada a depor, hoje de manh.
       - Jodi...
       -  verdade?
       - A polcia concordou comigo. No fazia o menor sentido levar isso adiante, se a manifestao foi um ato pacfico.
       - Sei. Por que fez isso, Lo? Para que eu ficasse lhe devendo um favor? Por que faria algo assim, ser que posso adivinhar? Para que pudesse exigir que eu...
       - Agora chega!
       Surpresa, Jodi se calou. Lo a encarava, furioso. Ser que ela chegaria ao ponto de imaginar que a obrigaria a fazer amor com ele?
       Por trs da ira, num nvel muito mais profundo, Lo era espicaado por uma dor dilacerante.
       Jodi jurara para si mesma que no ia se deixar convencer de que estava errada. Depois do que houvera naquela manh, para ela era lgico que Lo seria capaz
de chantage-la, pelo fato de t-la ajudado a no ir para a priso. Em troca de sua liberdade, ele poderia fazer exigncias no caso de uma gravidez acidental.
       A angstia a torturava. Ignorando a tenso insuportvel entre os dois naquele momento e a raiva evidente no olhar de Lo, Jodi protestou:
       - No se importa, no  mesmo, Lo? Os sentimentos, a vida humana, para voc tanto faz. Est feliz em fechar a fbrica e despedir os empregados...
       "E tambm por negar a seu filho o direito de nascer", pensou, mal suportando a tristeza que essa constatao lhe causou. Sofria, no pela criana, porque
tinha certeza de no estar grvida, mas pela desiluso, pela destruio dos sonhos tolos que tivera.
       Bem no fundo, Jodi o imaginara como um heri, um homem muito especial, cheio de virtudes, como o instinto protetor em favor dos mais fracos. Era difcil aceitar
que se enganara. Doa muito.
       Para Lo, bastava. Com Jodi podia acus-lo de no ter sentimentos? Se fosse insensvel como Jodi afirmava, estaria na cama com ela naquele exato momento.
       Lutava para controlar a raiva, mas no podia deixar de reagir.
       - Se esse  seu jeito de me convencer a manter a fbrica aberta, fique sabendo que a ttica que usou na sute do hotel teria sido muito mais eficiente.
       Assim que disse isso, Lo se arrependeu. Mas era tarde demais.
       Jodi o olhava, espantada, boquiaberta. Como ele podia ter jogado to sujo? Bem, assim sendo, decidiu fazer o mesmo. Lo no perdia por esperar, logo descobriria
que ela tambm era capaz de contra-atacar.
       - Se eu achasse que a ttica daria certo, poderia ter arriscado us-la de novo. Mas se eu estivesse em seu lugar...
       - Faria tudo diferente?
       - Na verdade, iria me certificar dos fatos, antes de sair por a fazendo acusaes. E para mim, chega dessa conversa fiada, no quero ouvir mais nada. - Jodi
deu-lhe as costas e, lanando-lhe um ltimo olhar, foi embora, antes que Lo tivesse tempo de tentar impedi-la.
       Por que no falara que encontrara uma soluo para manter a fbrica aberta? Por qu? Porque seu ego monumental e estpido no lhe permitira fazer isso!
       Quando Jodi chegou em casa, sentia-se um pouco tonta. Decerto isso se devia ao excessivo calor e por no ter comido muito, dizia para si mesma, sem ousar
imaginar qualquer outra possvel causa para seu mal-estar. Isso seria bobagem.
       Sim, mas no dava para negar as possveis conseqncias dessa bobagem.
       No que no gostasse de crianas. Nem que no desejasse ser me. Mas no ainda, e no dessa maneira.
       Queria ter filhos numa situao bem diferente, para serem criados com amor, por duas pessoas que se amassem e que estivessem comprometidas num relacionamento
srio.
       Estava se desesperando  toa, fazendo tempestade em copo d'gua, s por causa de um simples enjo.
       Era fcil falar isso, mas difcil de acreditar. A culpa tinha um poder terrvel!
       Com a imaginao a toda velocidade, Jodi ponderava sobre a possibilidade de ser me solteira e no conseguia articular um raciocnio sensato. Mesmo se estivesse
grvida, seria muito cedo para ter enjos. Mas ento por que sentia nuseas?
       Ora, e se tivesse engravidado? O que faria? Uma mulher com sua profisso, uma professora, grvida, sem ter nem sequer um namorado? Como explicaria isso aos
pais dos seus alunos?
       Gelou diante do comportamento que tivera. Comeou a fazer clculos. Teria de esperar para ter certeza de que nada acontecera.
       Enquanto isso, tentaria no entrar em pnico.
       CAPITULO VIII
       Jodi ouviu o burburinho do grupo de pais, que conversavam perto do porto da escola. Surpresa, observou-os. Em geral, s segundas-feiras o clima era mais
tranqilo, mas naquela manh, os nimos pareciam exaltados. Ela, pelo contrrio, sentia-se bem desanimada, concluiu, ao ouvir uma me cham-la.
       - J sabe da novidade? No  maravilhoso? Eu quase no pude acreditar no que ouvia, quando John passou em casa no sbado e contou que Lo Jefferson tinha
decidido manter a fbrica funcionando.
       Jodi ficou pasma. Lo fizera isso?! Mas ele lhe dissera que...
       Antes que tivesse tempo de organizar o pensamento, outra me entrou na conversa, parabenizando-a pelo papel que tivera na manifestao da semana anterior.
       - Ns todos ficamos, muito impressionados com o jeito como Lo Jefferson falou de voc na polcia, afirmando que no tinha inteno de levar as coisas adiante.
E depois, quando soubemos que ele no ia mais fechar a fbrica... Bem, isso muda tudo. Talvez Lo no seja bem como imaginvamos. - Mas, antes de prosseguir, deu
um olhar desconfiado, como se quisesse insinuar algo. - Claro que voc deve ter ficado sabendo da notcia antes de ns.
       Jodi enrubesceu. Os demais pais tambm se viraram, olhando-a com uma estranha curiosidade, mas ela no fazia a menor idia do motivo. At que ouviu Myra Fanshawe
exclamar, com veemncia:
       -  Eu acho tudo lamentvel. Uma pessoa na posio dela, uma professora e coordenadora da escola, se envolver num escndalo dessa natureza... Devo dizer, no
entanto, que isso no me surpreende. Nunca gostei de alguns dos mtodos de ensino que Jodi adota.
       Myra estava de costas para Jodi, conversando. Ao notar que Jodi se aproximava, a outra mulher, corando de constrangimento, murmurou algo.
       Mas Myra, ao contrrio, no estava nem um pouco constrangida. Levantou a cabea, petulante, e disse ainda mais alto:
       - Sinto muito, mas no me importo se ela ouvir o que estou falando. Afinal de contas, o erro foi dela. Imagine, comportar-se dessa maneira! Passar a noite
na sute dele, no hotel! E depois quer que acreditemos que  a virtude em pessoa!
       Jodi fervia por dentro, roxa de vergonha, vendo os outros pais e mes recuarem,  medida que ela se aproximava.
       Ao perceber a expresso maliciosa e triunfante de Myra, sentiu o corao apertado. Jodi no gostava dela, mas o que estava em jogo no momento era uma outra
questo, muito mais sria e perigosa, algo que punha em risco sua reputao.
       Consciente de suas responsabilidades dentro da escola e diante dos pais, Jodi tomou coragem, respirou fundo e decidiu enfrentar Myra:
       -  Presumo que eu seja o assunto dessa conversa, e nesse caso...
       - No vai tentar negar o fato, espero - Myra a interrompeu, grosseira, antes que Jodi terminasse de falar. - No ia adiantar nada, e s pioraria tudo ainda
mais. Ellie, a recepcionista do hotel,  minha afilhada, e ela viu quando voc chegou l. E quando saiu, na manh seguinte. Ao ver sua fotografia no jornal, reconheceu-a
na hora. Ellie custou a acreditar que voc pudesse participar de uma manifestao na fbrica, depois de ter passado a noite com o proprietrio.
       Jodi estremeceu. Isso era muito pior do que pudera imaginar e, pela forma como as outras mes a fitavam, percebia que estavam chocadas com as revelaes de
Myra.
       O que poderia dizer em sua defesa? Diante da atual circunstncia, como justificar sua atitude?
       Jodi concluiu que nada do que dissesse tornaria a situao menos comprometedora. E, se falasse a verdade, seria ainda pior.
       - Percebe que, como presidente do conselho,  meu dever levantar essa questo, j que seu comportamento deixa dvidas quanto a sua integridade...
       - Eu no...
       - ...e, alm de tudo, foi parar na delegacia, solta sob fiana. Acho que a Delegacia de Ensino deveria ser informada desses fatos. Afinal, eu, como me, tenho
de zelar pela moral de meu filho.
       Myra no parava de falar, com tanto fervor que alguns pais arregalaram os olhos, diante do que ouviam.
       Para alvio de Jodi, o sinal tocou, e as crianas foram para as classes, dando-lhe a oportunidade que queria para escapar daquela tortura.
       Da tortura talvez, pensava, enquanto olhava pela janela de sua sala, meia hora mais tarde, mas no do tormento propriamente dito.
       Notara as expresses dos demais pais, uns, de piedade, outros de sdica curiosidade, enquanto Myra revelava o pior de seus segredos.
       Jodi sabia que Myra tinha poder suficiente para infernizar sua vida e de sua famlia. Os outros membros do conselho, claro, ficariam preocupados com a probidade
e a moral de sua coordenadora e professora e, embora Jodi achasse improvvel que as autoridades educacionais tomassem alguma medida legal contra ela, sabia que sua
imagem afetaria o bom nome da escola.
       Quanto s ameaas de Myra de denunci-la  Delegacia de Ensino, talvez fossem exageradas. Mas Jodi jamais insistiria em permanecer na escolinha, se isso fosse
contra a vontade dos pais ou se achassem que ela no servia para cuidar de seus filhos.
       Estava arrasada. Se isso acontecesse, se fosse obrigada a renunciar ao cargo depois de tudo o que fizera, depois de tanto trabalho!
       Mas o que poderia dizer em sua defesa? Aquele comentrio maldoso de Myra sobre a preocupao que tinha com a moral do filho ferira muito Jodi.
       Sua cabea comeou a doer. De manh, obrigara-se a tomar um caf reforado, para provar a si mesma que no estava tendo os enjos matinais que toda grvida
costuma ter no incio da gestao. Agora, a comida pesava-lhe no estmago.
       Seria por causa de tenso, da angstia e da tristeza que sentia? Tentava se consolar, mas as histrias que ouvira sobre mulheres que j haviam passado pela
mesma situao em que ela se encontrava espicaavam-na.
       E, para piorar, Jodi no tinha ciclos menstruais regulares, ainda mais quando estava estressada.
       Apesar do tumulto que Myra provocara, Jodi no podia deixar de pensar no fato de Lo no ter lhe contado que pretendia manter a fbrica aberta. Por que deixara
que ela o acusasse daquela maneira, sem dizer nada?
       Quando Lo soube o que acontecera com Jodi, j estava quase na hora do almoo.
       Passara a maior parte da manh com seus contadores, negociando pacotes financeiros para acomodar as mudanas que fizera nos planos originais traados para
as fbricas recm-adquiridas.
       Os banqueiros receberam com bons olhos a notcia de que Lo pretendia criar seu prprio centro distribuidor e admitiram que, em se tratando de Lo Jefferson,
a iniciativa devia ser bem-sucedida.
       Mas at aquele instante, ele no conseguira afastar Jodi da cabea,   lembrando-se da discusso que tiveram na vspera. Por que deixara que ela fosse embora
daquela maneira?
       Tinha uma reunio na fbrica e, ao chegar l, fora informado de que Jeremy Discroll o aguardava. Furioso, discutiu com Lo:
       -  Vim buscar alguns papis que deixei aqui, mas os cretinos de seus encarregados no permitiram que eu  encontrasse no controle de estoque. Sabe-se l por
ordem de quem...
       - Por minhas ordens.
       Sobre a mesa, havia uma cpia do jornal local, e Lo franziu a testa ao ver a fotografia de Jodi publicada na primeira pgina.
       Jeremy, lgico, tambm j tinha visto e comentou, com ironia:
       - As duas faces da srta. Virtude. Bem, agora todo mundo vai saber que ela  de verdade.
       - O que quer dizer com isso? - Lo, intrigado, percebendo a maldade nos olhos azuis de Jeremy.
       - O que acha?! Jodi foi vista saindo, sorrateira, de sua sute do hotel, de manh bem cedo. E ento, que tal? Ela  boa? Voc pode ter se impressionado com
a garota, mas no acredito que os pais dos alunos gostaro de saber que a professora de seus filhos costuma freqentar quartos de hotel durante a noite.
       Jeremy balanou a cabea, em sinal de reprovao.
       - No ficarei nem um pouco surpreso se eles exigirem que ela pea demisso do cargo.
       Arrasado, Lo pensava em alguma maneira de proteger Jodi daquela humilhao. Jeremy tinha certeza do que dizia, no podia estar blefando. Era bvio que algum
a vira saindo de sua sute naquela manh.
       O crebro de Lo comeou a trabalhar em alta velocidade. Precisava raciocinar rpido. S havia uma coisa que poderia fazer para tentar ajudar.
       Lo encarou Jeremy com frieza, e, com olhar de enfado, disse, com toda calma do planeta:
       - Duvido que isso possa acontecer. Afinal, no vejo nada de mais no fato de um casal de noivos passar a noite juntos.
       -  Noivos?! Se  mesmo verdade o que diz, por que ningum sabe a respeito?
       - Porque decidimos manter segredo, por enquanto - respondeu Lo, distante. - Alis, este assunto no  de sua conta. E a propsito... - Esboou um sorriso
de sarcstico. - ...meus contadores me disseram que descobriram algumas irregularidades nos nmeros da empresa, que voc alterou, depois de ter destrudo os arquivos
naquele incndio. Evidente que eles garantiram  Receita Federal que daremos todo o apoio necessrio para a investigao que ser feita.
       Jodi olhava para sua mesa de trabalho. Sentia-se em frangalhos. Como se no bastasse a situao em que se metera, havia uma reunio de pais marcada para aquela
noite, na qual ela deveria falar sobre os planos para aumentar as atividades extracurriculares.
       Estremeceu, imaginando qual seria o assunto principal da reunio, depois do que acontecera naquela manh.
       Podia imaginar tambm as crticas e a desaprovao geral que encontraria pela frente, e, segundo ela mesma, merecidas.
       Entrara na sute de Lo, ficara bbada, dormira na cama dele e, como se isso no bastasse...
       No era um comportamento digno de uma professora, com responsabilidades diante de crianas. E Myra tinha razo, quando a avisara que os pais no veriam com
bons olhos sua atitude.
       Se ao menos aquela fotografia no tivesse sado na primeira pgina do jornal! Mas sara e...
       Ficou tensa ao ouvir uma batida na porta. Corou quando Helen Riddings, sua colega e uma das professoras mais experientes da escola, ps a cabea para dentro
e perguntou:
       - Est tudo bem com voc? Eu s...
       - Desculpe-me, hoje  meu dia de ficar com as crianas na hora do recreio, no ? - Jodi evitava o olhar da colega.
       Sabia muito bem que Helen no fora at l s para lembr-la disso.
       - Mas voc nem almoou, Jodi... Posso ficar com os garotos no recreio, se quiser. Myra Fanshawe est no playground com algumas mes.
       - Tudo bem, Helen. Acho que posso imaginar o que est acontecendo. Voc e os outros professores j devem ter ouvido as ltimas notcias.
       - Voc no me parece nada bem, Jodi. Por que no vai para casa?
       "Antes que a situao se torne insustentvel e eu seja obrigada a pedir demisso?" Ser que era isso que Helen queria dizer?, indagava-se Jodi, com amargura.
       - No posso fazer isso. - Jodi estava de fato comeando a passar muito mal.
       Falatrios daquele tipo costumavam se espalhar como fogo, ela sabia disso. Quanto demoraria para que chegar aos ouvidos de seus amigos e seus familiares?
       Sentiu um n no estmago. Seu pai e sua me estavam comemorando a aposentadoria, em uma longa viagem pela Amrica do Sul, mas no demorariam a voltar.
       Seus parentes tinham tanto orgulho dela, do que fizera pela escola... O que diria Jodi, quando pedissem uma explicao para aquilo tudo? Que vira Lo Jefferson
no saguo do hotel e sentira uma atrao irresistvel?
       Quando Helen saiu da sala e fechou a porta, Jodi suspirou de desgosto. No era isso apenas o que sentia por Lo Jefferson, Atrao no afetava as emoes
daquele jeito. Nem levava uma pessoa a sonhar  noite e a chorar por descobrir uma verdade cruel a respeito do ser amada. Aquilo era amor!
       Respirou fundo e se dirigiu para dar a primeira aula da tarde.
       Perguntava-se se no seria cedo demais para tentar comprar na farmcia um teste de gravidez. Assim, poderia ter certeza. Mas desistiu da idia, imaginando
o que diriam todos quando soubessem que de mais esse deslize, na atual circunstncia. No podia correr esse risco.
       E pensar que pouco tempo atrs ela era um modelo de virtude e moral, que conquistara o respeito dos pais e das autoridades de ensino. Recebera, inclusive,
uma proposta de emprego na escola particular de maior prestgio da regio. Sentia que aquela Jodi j no existia mais, pertencia a uma outra poca, algo como uma
outra vida.
       Como se metera numa situao dessas? J tinha ouvido dizer que o amor era uma espcie de loucura!
       Apaixonar-se! Teve ento certeza de que estava prestes a perder o contato com a realidade. No se apaixonara por Lo Jefferson, de jeito nenhum!
       Lo consultou o relgio. Passara a tarde inteira em reunies, mas agora ficara livre.
       Tinha conscincia de que deveria avisar Jodi sobre o noivado deles. Contudo, depois do que acontecera na ltima vez em que a vira, acreditou que talvez fosse
melhor telefonar.
       A aula j devia ter terminado. Lo poderia dirigir at a vila e ligar para a casa dela de l. Explicaria o que sucedera e, dali a pouco, assim que a situao
esfriasse, eles poderiam, com discrio, dizer que tinham rompido o noivado.
       S de lembrar a expresso de Jeremy Discroll, quando naquela manh contara o falatrio sobre Jodi, com os olhos cheios de malcia, Lo sentia vontade de avanar
sobre ele. Queria ter o direito de poder defender Jodi, de proteg-la de verdade. E, em seu modo de ver, a melhor maneira de fazer isso era colocar-lhe uma aliana
na mo esquerda: uma aliana de casamento!
       Era mesmo bem mais italiano do que imaginara, reconheceu, ao caminhar para o carro, o que o fez recordar que precisava ligar para seus pais. A visita que
prometera fazer teria de ser adiada, pelo menos at que soubesse com certeza que estava tudo bem com Jodi.
       - Voc vir  reunio esta noite, no ?
       Jodi ficou tensa ao ouvir a pergunta que Myra Fanshawe fez, na frente de um grupo de pais, perto do porto.
       - Agora que arranjou um noivo rico, creio que no se preocupar tanto mais como futuro da escola ou dos alunos.
       Um noivo rico. Ela? Do que Myra estava falando?
       Nunca se sentira to exausta depois de uma jornada de trabalho, mas, lgico, esse no fora um dia normal. Por isso, era natural que estivesse com sono e quisesse
dormir.
       Contudo, antes, teria de comer anchovas! Por algum motivo, passara a tarde inteira com esse desejo, o que era muito estranho, j que no costumava comer anchovas.
Nem ao menos gostava muito desse peixe.
       Myra estava de p diante dela, com os olhos apertados, agressivos e frios.
       - No pense que por estar noiva de Lo Jefferson se livrar de responder algumas questes que os pais, e at mesmo, as autoridades da Delegacia de Ensino,
vo lhe fazer. - Fungou, antiptica. - E...
       - S um minuto. Voc afirmou que estou noiva de Lo Jefferson. O que quer dizer com isso?
       Mais uma vez, tornou a sentir tontura, ondas de calor e de frio, perguntando-se de onde Myra teria tirado aquela histria absurda e com que direito espalhava
o falatrio por todo canto. Olhou ao redor e viu, para seu espanto e desespero, que os demais pais as observavam.
       -  um pouco tarde agora para assumir esse seu ar de inocncia, professora. Embora eu seja obrigada a dizer que deveria ter pensado antes numa forma de preservar
o bom nome de nossa escola.
       - Myra... - Jodi comeou a falar, quando viu alguns pais se afastarem para dar passagem ao Mercedes que estacionava mais alm.
       - Bem, a vem seu noivo.
       Lo saa do carro.
       - S espero que ele no pense que s porque comprou Frampton por uma ninharia, contra a vontade dos donos da fbrica, segundo Jeremy me falou, tem algum poder
por aqui. Jeremy sempre se preocupou com seus operrios
       Jodi no podia acreditar no que estava ouvindo.
       Lo se aproximava e, por algum motivo, Jodi decidira no tentar entender a situao aquele momento. Percebeu, no entanto, que uma parte dela estava feliz
de  v-lo ali.
       Sem uma palavra, Lo se aproximou de Jodi, tomou-lhe o brao e saiu com ela dali, no sem antes beij-la no rosto. Ento, murmurou em seu ouvido:
       - Explicarei tudo quando estivermos sozinhos.
       Ento, para que todos pudessem escutar, falou, alto e bom som:
       - Sinto muito, querida, eu me atrasei. Tive de resolver alguns assuntos.
       E, sem lhe dar oportunidade para dizer nada, levou-a para o automvel, abriu a porta do Mercedes para que Jodi entrasse, e se acomodou no banco do motorista.
       Jodi esperou at ter certeza, antes de perguntar, agitada:
       - Muito bem, agora que no h mais ningum a nos observar, pode me explicar o que est acontecendo e por que Myra Fanshawe espalhou para todos que estamos
noivos?
       - Myra Fanshawe? - Lo a fitou, surpreso.
       - Aquela que estava perto de mim quando voc chegou. - Cansada e com fome, tinha vontade de se atirar nos braos de Lo e chorar. - Ela  amiga ntima de
Jeremy Discroll.
       - Ah,  mesmo? Ento, isso explica como ficou sabendo sobre nosso noivado.
       - Como ?! - Jodi perguntou para ele, furiosa. - Que noivado?! No estamos noivos...
       - Oficialmente, no, mas... Jodi, eu no tive escolha. Discroll me falou que voc foi vista quando saa de minha sute naquela manh. Ele foi to...
       Lo no queria comentar a atitude desagradvel de Jeremy e o desrespeito com que se referira a ela.
       - Sei o que vai dizer. Se fui vista saindo de seu quarto, devo ser uma mulher fcil, que no serve para dar aulas a crianas. Pelo amor de Deus, tudo o que
fiz foi ir para a cama com voc... duas vezes. Isso no significa que...
       Espantada, sentiu seus olhos se encherem de lgrimas e a voz, engasgada, transbordar a emoo que sentia.
       - Jodi, sei o que isso quer dizer e o que no quer dizer. Todavia, s ns dois sabemos disso. Voc entende a que estou me referindo, no?
       Ao v-la desviar o olhar, sem dizer nada, Lo notou que Jodi corava e sentiu o corao se apertar.
       - Acho que no gostaria muito se eu publicasse um anncio no jornal, afirmando que voc era virgem at o dia em que dormiu em minha sute.
       - Isso no significa que precise dizer que somos noivos.
       - Fiz isso para proteger voc.
       Como ele tinha coragem de dizer isso, depois de afirmar que no queria o filho deles? Ou estaria tomando essa atitude para que confiasse nele, para mant-la
a seu lado, porque assim seria mais fcil control-la e agir rpido, se fosse preciso?
       -  No precisa me proteger, Lo. A responsabilidade no  sua.
       - Em sua opinio, talvez no. Mas no concordo Jodi. Voc no  a nica que tem um nome a zelar, e sabe disso. - A voz dele tornou-se, de repente, to grave
que Jodi se virou para olh-lo, arrependendo-se logo em seguida.
       A simples viso do perfil de Lo despertara nela um desejo incontrolvel que abafou todas as outras emoes que experimentava.
       Voc no pode sentir isso por ele, dizia-se para si mesma, em pnico. "No pode desej-lo, e muito menos am-lo."
       Um pequeno som, algo entre a dor e o desespero, brotou da garganta dela.
       - O que acha que falaro de mimi, depois que se tornar pblica a notcia de que eu e  voc...
       - Quer dizer que est fazendo isso por voc e no por mim, Lo?
       - Fao isso porque  a nica sada que temos.
       Jodi sentia-se fraquejar. Seria to mais simples deixar Lo tomar as decises, seria to mais agradvel se ele se encarregasse de defend-la da opinio pblica,
fazendo com que todos acreditassem que a amava...
       No, no poderia ser assim, porque seno ela mesma correria um srio risco de tambm acreditar nessa mentira.
       - No. - Determinada, sacudiu a cabea. - No vou me esconder atrs de voc, Lo, no mentirei, nem fingirei. Posso ter cometido um erro imoral, na opinio
de alguns. Mas, para mim, mentir seria um erro muito mais grave. Se querem me criticar ou me condenar, terei de aceitar as conseqncias de meus atos.
       Vendo no olhar de Jodi o temor e a altivez lutarem entre si, Lo sentiu uma grande admirao pela honestidade dela e, ao mesmo tempo, ternura por sua fragilidade.
Era to inocente, to sensvel! Tinha de proteg-la tanto de si mesma quanto dos outros.
       Lo fez a curva para entrar em sua garagem.
       - Voc ser crucificada. Ser que quer jogar tudo o que conquistou at agora pela janela, Jodi? A escola, o respeito que conseguiu? Porque posso garantir
que  isso o que vai acontecer.
       - Existem outras escolas - respondeu ela, lutando para esconder a dor que aquelas palavras haviam lhe causado.
       Lo estacionou, e s ento ela notou onde estavam.
       - Por que me trouxe aqui? Quero ir para minha casa,
       - Voc  minha noiva. Aqui tambm  seu lar.
       - No! Ns no podemos ficar noivos! No ... ns no...
       - Ns precisamos, Jodi: no temos escapatria.
       - Leve-me daqui! Quero ir para minha casa - insistiu. - Tenho uma reunio hoje  noite e, se eu no for, Myra Fanshawe vai ganhar o dia.
       Jodi afundou no sof. A reunio fora to horrvel quanto imaginara. Myra tentara o tempo inteiro transformar o encontro num debate de moralidade, com a clara
inteno de humilh-la.
       Algumas pessoas a haviam apoiado, com os mais sinceros votos de felicidades, e alguns pais chegaram a se solidarizar com ela.
       - Ficamos felizes com a deciso de seu noivo de manter a fbrica em funcionamento.
       - O amor conquista tudo - acrescentara outra, com um sorriso.
       O amor tinha mesmo esse poder, refletia Jodi. Porm, Lo no a amava.
       O telefone tocou e, achando que fosse Nigel, Jodi atendeu.
       - Voc  incrvel mesmo, hein, prima?
        Jodi suspirou.
       - J soube das novidades?
       - Claro que sim. A cidade inteira j est sabendo. A propsito, acho que minha me falou com a sua, hoje  tarde, pelo telefone.
       - O qu?! Mas eu no queria que eles soubessem!
       - Como? - Nigel parecia confuso.
       -  Ou melhor, eu no queria que soubessem, por enquanto. - Jodi apressou-se em corrigir-se. - Queria contar eu mesma, e tudo aconteceu to rpido que...
       - Nem me diga. Confesso que fiquei atordoado quando soube que passou a noite com Lo no hotel, sobretudo porque naquele jantar voc o tratou como o inimigo
pblico nmero um.
       - Oh, Nigel... - Jodi se conteve.
       Como poderia explicar para o primo toda aquela confuso? E para quem ento ela poderia contar, seno para ele?
       Quando dissera a Lo que no queria se esconder atrs dele, fora sincera. No entanto, de repente se deu conta de que nada era to simples assim. Havia outras
pessoas em sua vida cujos sentimentos e opinies Jodi precisava levar em considerao.
       Depois de desligar, ficou ali parada, mordendo o lbio por alguns minutos, antes de pegar de novo o aparelho. Com as mos trmulas, discou o nmero de Lo.
       Bastou o som da voz dele, ao atender o telefone, para causar-lhe nervosismo.
       -  Jodi. Estive pensando sobre o que voc disse, quanto a nosso noivado, e eu concordo.
       Ao perceber que Lo no dizia nada, a boca de Jodi secou. E se ele tivesse mudado de idia? E se houvesse desistido de defender sua prpria reputao e no
achasse mais que era sua responsabilidade defend-la?
       Em seguida, ouviu o clique do telefone no gancho e sentiu um arrepio fortssimo. Ele no queria mais!
       E agora? O que iria fazer?
       Dez minutos mais tarde, Jodi estava encolhida no sof, quando ouviu a campainha tocar.
       "Deve ser Nigel", pensou ao se levantar para ir atender, descala.
       Mas no era Nigel, e sim Lo! Caminhando at o hall de entrada, percebeu que ele trazia uma garrafa de champanhe e duas taas.
       -  S existe uma maneira de um casal comemorar o compromisso que assumiram um com o outro, Jodi. E isso inclui uma cama e muita privacidade. De preferncia,
uma cama grande e um longo perodo de privacidade. Mas, j que nosso noivado no  o tipo de compromisso para todo o sempre, achei que champanhe seria muito bom.
       Quando terminou de falar, Lo olhou para ela. Jodi sabia que estava vermelha, no de raiva ou vergonha, percebeu, sentindo-se culpada, mas com a reao que
as palavras de Lo haviam lhe provocado.
       - Evidente que se voc preferir a primeira alternativa... - sugeriu, meloso.
       Jodi o encarou, indignada.
       - Eu preferiria no me encontrar nesta situao.
       Quando ela se virou para o outro lado, Lo se perguntou o que Jodi faria se ele lhe dissesse que estava prestes a tom-la nos braos e que gostaria de lev-la
para um lugar onde ficassem a ss, para que pudesse saci-la com seus beijos, oferecendo-lhe tanto amor, tanto...
       Tanto o qu? Tanto que ela diria que tambm o amava?
       - Como foi a reunio de pais? - Lo abriu a garrafa.
       - Nosso noivado abriu a discusso. - Jodi fez uma careta.
       Decidira no contar que Myra lhe dissera, antes de sair, que pretendia comunicar tudo s autoridades.
       -  s tempestade em copo d'gua. Daqui a seis meses, ningum vai se lembrar disso.
       No fora isso o que Lo dissera antes, quando insistiu no noivado como nica forma de evitar um escndalo para ela. Jodi mordeu o lbio. De qualquer maneira,
dentro de seis meses, poderia j t-la esquecido, mas ela jamais se esqueceria dele.
       Lo ofereceu-lhe uma taa.
       - No, eu no posso.
       Para seu alvio, ele no insistiu. Apenas apoiou a taa numa mesa, antes de perguntar:
       - Por causa do que houve no hotel, depois que tomou aquele coquetel? Pelo cheiro da jarra, tratara-se de uma mistura letal de lcool com...
       Antes que ele conclusse, Jodi fez que no. No era esse o motivo, por estranho que parecesse, diante daquelas circunstncias.
       - No, Lo.  que eu detesto ter de fingir assim. No acho certo fazer um brinde to tradicional e romntico numa situao artificial, uma fico.
       A honestidade dela, to direta e inesperada, comoveu Lo. Jodi parecia to triste, to adorvel que ele tinha vontade de estreit-la contra si.
       - No...
       - Por favor, no quero mais falar sobre isso. - Ela se ergueu e foi at a sala.
       Sabia o que ele pretendia dizer. Diria que, diante de tudo aquilo, a franqueza deles no importava. Talvez no para ele, mas, para ela, sim. Sobretudo porque,
no conceito de Jodi, aquele cinismo significava uma falta de respeito em relao a um costume, um gesto to especial quanto uma comemorao de noivado, reservada
apenas s pessoas que se amavam.
       - Gostaria que voc fosse embora, Lo.
       Por um momento, ele hesitou. Jodi parecia to frgil que gostaria de ficar a seu lado. Estava plida e cansada. Franzindo a testa, observou-a mais uma vez.
       - Jodi, sei que j falamos sobre isso, mas... se existe alguma chance de voc ter se enganado e estar grvida, ento eu...
       - No estou!
       Jodi chegara a crer que pudesse ter se enganado, julgando-o mal. Mas, mesmo que suas defesas tivessem fraquejado, diante da sensibilidade e da preocupao
que lhe demonstrara minutos antes, Lo acabava de lhe dar a prova de que precisava. No se enganara, agora sabia com convico.
       S havia um motivo para ele estar ali, s uma pessoa com a qual se preocupava, e no era ela ou a criana que Lo no desejava.
       - Estou exausta, Lo. Quero que voc v embora.
       Ao entrar no Mercedes, Lo se indagava o que havia pretendido com tudo aquilo. Ser que pensara que o simples fato de aparecer com uma taa de champanhe para
comemorarem aquele noivado fictcio bastaria para faz-la se apaixonar? Como se isso fosse possvel...
       Podia ser um tolo, mas era um sujeito honrado e queria defender Jodi e sua reputao. E, por enquanto, manter aquela farsa diante de todos era a nica maneira
de conseguir isso. Dentro de pouco tempo, daria a ela um anel de brilhante, para selar o noivado deles diante de todos.
       CAPITULO IX
       Sem se conter, Jodi olhava para o anel de noivado que usava, um solitrio de brilhante discreto, maravilhoso.
       Quando Lo decidira comprar a jia, ela protestara com veemncia, mas ele se recusara a desistir da idia. No final, Jodi teve de concordar, depois de receber
um convite do tio e da tia, os pais de Nigel, para um jantar na casa deles.
       Lo a convencera, e Jodi sabia que ele tinha razo, de que, sendo os tios dela pessoas j de certa idade e muito tradicionais, estranhariam se uma mulher
que acabara de ficar noiva no estivesse usando um anel na mo direita.
       S por esse motivo ela permitira que Lo a levasse at a cidade, para comprar o solitrio que usava naquele momento. A princpio, Jodi insistira para que
ele comprasse algo barato, com uma pedra falsa, mas Lo ficara to irritado com a sugesto que ela foi obrigada a voltar atrs.
       Ele no revelou o preo da pea que escolhera. Bem que Jodi tentou convenc-lo a adquirir outro, com um diamante menor, que o joalheiro lhe mostrara na nica
loja de alianas local. Mas Lo fizera questo de que ela experimentasse vrios anis, antes que ele dissesse que gostava mais daquele que Jodi estava usando.
       Ficara surpresa com a escolha dele, porque aquele seria, na verdade, seu predileto, se as circunstncias fossem outras.
       Naquele instante, sentada ao lado de Lo no carro, Jodi no podia evitar olhar para o solitrio, que brilhava contra a luz do luar.
       Por mais que gostasse dos tios, Jodi no estava nada animada para ir quele jantar. Gostava muito do casal, mas, sobretudo a tia, gostava de fazer sempre
muitas perguntas, s vezes difceis de responder.
       - No precisava ter aceitado o convite, Lo. Eu poderia ter arranjado uma desculpa qualquer. Afinal, levando-se em conta tudo o que houve...
       A notcia de que Jeremy Discroll seria alvo de um inqurito na Receita Federal se espalhara. Mas nem mesmo esses comentrios foram capazes de fazer calar
Myra Fanshawe, que continuava a repetir pelos quatro cantos as dvidas que tinha quanto ao comportamento de Jodi.
       - Gostaria de falar com o Sr. Jferson? - perguntou a nova secretria de Lo, quando ouviu aquela voz feminina do outro lado da linha.
       A mulher explicou que tentara entrar em contato com ele no celular, mas que no conseguira, e que no tinha notcias dele havia vrios dias.
       - Sinto muito, mas o Sr. Jefferson no se encontra, e tenho a impresso de que o celular dele est desligado, porque foi encontrar a noiva.
       Do outro lado da linha, a me de Lo, Lusa Jefferson, quase deixou o fone cair.
       - A noiva dele? Ah... sim...  claro!
       - Quer que eu o avise que a senhora ligou?
       - No, no ser preciso, obrigada. - E Lusa desligou. Depois de colocar o aparelho no gancho, Lusa chamou o marido, que estava sentado  beira da piscina.
       -  Preciso ir  Inglaterra para ver Leonardo - informou-o.
       A noite transcorrera num clima muito agradvel. Lo rira muito, ouvindo as piadas que o tio de Jodi contara, e elogiara tanto a deliciosa comida que foi servida
que o casal mostrou a maior satisfao em receb-lo na famlia, de braos abertos.
       Jodi, que era uma pessoa bastante objetiva, assistira a tudo com um cinismo desculpvel.
       - E ento, Jodi? J tm algum plano para o casamento?
       - No...
       - Sim...
       Os dois falaram ao mesmo tempo. A tia Gerty olhou para Lo, que ria da situao, e em seguida para Jodi, sem entender o que se passava.
       - Acabamos de ficar noivos, titia.
       - Eu me casaria com Jodi amanh mesmo, se ela concordasse. - Lo esboou um sorriso largo, e se virou para olhar Jodi.
       Ela teve vontade de gritar. Sabia que ele estava se divertindo muito com tudo aquilo.
       - Bem, na certa Jodi vai querer esperar os pais dela voltarem de viagem, antes de tomar uma deciso. E seus pais, Lo?
       - Pretendo levar Jodi para a Itlia para conhec-los, assim que for possvel - falou, com sinceridade. - Porm, tenho absoluta certeza de que iro am-la
tanto quanto eu amo.
       Ento, antes que Jodi tivesse tempo para entender o que ele pretendia fazer, Lo tomou-lhe a mo e beijou-lhe os lbios com ternura.
       Assim que Lo a tocou, ela sentiu um desejo descontrolado que a deixou irritada e tambm com medo. Tinha raiva dele porque o amava, e dela mesma, porque no
conseguia evitar esse sentimento.
       Sem se conter, fechou os olhos e desejou que aquilo tudo fosse mesmo realidade. Queria que Lo a amasse e que existisse um futuro para os dois.
       Os tios de Jodi se despediram na porta da frente. Lo ps o brao no ombro de Jodi, e puseram-se a caminhar at o Mercedes, embora no fosse possvel, da
residncia, avistar o veculo.
       - Pode me soltar agora, Lo. Ningum est nos vendo mais.
       - E se eu no quiser? - indagou, com doura.
       A luz do luar era suficiente para Jodi ver nos olhos de Lo o brilho do seu desejo.
       Trmula, ela se recostou no carro, mas no estava com medo.
       - Lo! - exclamou, mas ele j deslizava a mo pela pele do brao de Jodi, devagar.
       O toque fez aumentar seu desejo, e ela temeu o que pudesse lhe acontecer se deixasse transbordar a intensa emoo que experimentava naquele minuto. Se um
simples toque a deixava naquele estado...
       Era louca por ele. Como o queria!
       - Estamos noivos, Jodi, lembre-se. Temos o direito de fazer isso. E s Deus sabe como eu quero!
       - Mas nosso noivado no  de verdade.
       - Pode ser que no, mas o que est acontecendo  bem real. - Lo ps uma mo na cintura dela e a outra no rosto de Jodi, que conteve a respirao, olhando-o
bem nos olhos.
       Em seguida, ele se curvou para beij-la e...
       Quando Jodi teria erguido a mo para acarici-lo? Quando teria aberto os lbios, permitindo que a beijasse com tanta paixo? Em que momento teria se aproximado,
eliminando a pequena distncia que os separava, para segurar, o brao de Lo, cravando os dedos em seus msculos fortes, ao passo que as defesas se desfaziam dentro
dela?
       -  O que voc tem que me faz sentir assim? - Lo ofegava, mas Jodi sabia que aquelas palavras de pura volpia poderiam ter sido pronunciadas por ela prpria.
       Tambm no tinha dvida de que, se Lo a levasse para casa naquele exato momento, no conseguiria resistir  tentao.
       - Agora, eu poderia... - Lo falava - ...poderia... Uma coruja passou por cima deles, assustando-os. Lo recuou, de repente, e destravou a porta do carro.
       Calada, Jodi observava o pacote que segurava. Comprara-o quando fora  cidade com Lo, no dia em que ele adquirira o anel de noivado. Vira a farmcia e dera
um jeito de escapar e comprar o que temia estar precisando.
       J fazia trs semanas desde que fizeram amor. Relutante, abriu o pacote e leu as instrues. Era s por precauo, dizia para si mesma, era s isso.
       Suas suspeitas no passavam de culpa e ansiedade, seria quase impossvel ter engravidado. O corpo desenvolvia reaes estranhas quando submetido a um estresse
como aquele pelo qual vinha passando.
       Myra lhe contara que o comit decidira informar  Delegacia de Ensino sobre seu comportamento. Jodi fora obrigada a fazer uma entrevista, por telefone e aguardava
por uma resposta dos delegados. No fazia idia do que resolveriam. Na melhor das hipteses, poderia receber uma advertncia, e na pior... No queria nem cogitar
a possibilidade.
       No tinha nenhuma iluso quanto  gravidade da situao em que se encontrava, mas no momento...
       Olhou para a o kit de teste de gravidez com tristeza. No precisava fazer aquilo, precisava? Afinal, sua menstruao s atrasara alguns dias. Talvez uma semana.
Estava certa de que o enjo que vinha sentindo no passava de tenso.
       Mas e a vontade insana de comer anchovas?
       Jodi cuidava da sade e seguia uma dieta de pouco sal. No entanto, seu corpo pedira por sal.
       Respirou fundo e tirou o  kit da caixa. O resultado ia dar negativo, e ponto final.
       Positivo.
       Jodi olhava para o teste, incapaz de aceitar o que via.
       Devia estar errado. O kit viera com defeito ou ela cometera algum equvoco. Comeou a se desesperar. No podia estar grvida, no podia!
       Um filho de Lo! Ela ia ter um filho dele! Por que ento estaria ela sorrindo daquela maneira?, Perguntava-se, ao ver sua imagem refletida no espelho do banheiro.
       Ouviu o barulho do carteiro no andar de baixo. O ano letivo terminara, e,ela precisaria procurar emprego. Terminou de se vestir e desceu para pegar a correspondncia.
       Havia um carto de seus pais e um punhado de cartas comerciais.
       Teve de se sentar, antes de se recompor para ler o carto. Seus pais. Nem era preciso perguntar-se o que eles sentiriam quando soubessem das novidades.
       O falatrio se espalharia rpido, e Jodi sabia que ser me solteira no era aquilo que eles planejaram para ela, nem para o neto que ganhariam. Para ser sincera,
no era o que sonhara para si tambm.
       Jodi tinha a garganta seca.
       Pedira aos tios que no contassem nada sobre seu noivado, pois queria falar pessoalmente com os pais.
       Sabendo que eles no voltariam antes de dois meses pelo menos, achou que teria tempo para pr a vida em ordem antes de seu retorno. Mas agora...
       Poderia contar com o apoio dos pais, claro, para o que quer que acontecesse. Eles amariam o neto, apesar de ter sido concebido de um modo pouco convencional.
No entanto, haveria comentrios, reprovao, e a presena constante de Lo por perto tornaria invivel sua permanncia na vila. No poderia mais viver ali.
       No iria sujeitar sua famlia a uma situao daquelas. E o beb? Como poderia cri-lo num ambiente de humilhao, sabendo que fora rejeitado pelo pai?
       No, tudo seria muito mais fcil para todos que ela amava, se fosse embora para bem longe.
       Afinal, decidiu com orgulho, agora no era apenas sua habilidade como professora que estava em questo.
       Quanto ao fato de que seria me solteira, quem se importaria com isso, se morasse a centenas de quilmetros dali? Quem se interessaria pelas insinuaes e
crticas maliciosas de Myra Fanshawe?
       - Me! - Surpreso, Lo olhou para o rosto familiar daquela visita inesperada, quanto atendeu a porta.
       Contara aos pais que se mudara para uma casa alugada em Frampton e que moraria l at resolver as dificuldades de seus negcios. Evidente que no cumprira
a promessa de visit-los na Itlia, mas no esperava ver a me a sua soleira.
       - Onde est papai? - Franziu a testa, ao ver o txi indo embora.
       - Tive de vir s. S posso ficar por uns dias, mas tenho certeza de que teremos tempo de sobra para voc me apresentar sua noiva.
       Lo, que se abaixara para apanhar a mala de Lusa, a encarou.
       Muitas coisas passaram por sua cabea numa frao de segundo, mas Lusa era a me dele, uma mulher perspicaz e inteligente, como descobrira ao longo de seus
trinta e poucos anos.
       - Acho melhor voc entrar, mame.
       - Concordo. Bem, este imvel  muito boa para uma famlia. E bem construdo, e eu gosto do jardim, embora precise de uma boa reforma. Sua noiva gosta de jardinagem?
Tomara que sim, pois uma mulher que sabe cuidar de suas plantas tambm saber cuidar de seu marido e de seus filhos.
       Lusa era a nica pessoa no mundo que o chamava de Leonardo, acentuando a segunda slaba de seu nome, pensava Lo ao conduzi-la pelo hall. Notou que a me
observara o vaso de flores que Jodi arrumara no centro da mesa, no incio da semana.
       Lo a trouxera consigo antes de irem ao jantar com os tios dela, para guardar alguns documentos. O telefone tocara, e a conversa demorara um pouco. Quando
ele retornou  sala, descobriu que Jodi colhera algumas flores do jardim e as arranjara num lindo vaso sobre a mesa.
       -  uma lstima deix-las murchar desse jeito. Ento sua noiva gosta de cuidar do lar! - Lusa estudava o trabalho de Jodi. - Ela cozinha para voc?
       - Mamma! - Lo a levou at a cozinha. - Preciso contar-lhe uma coisa... e  uma longa histria.
       - S preciso saber de uma coisa, filho: voc a ama?
       Por um instante, Lusa achou que Lo no fosse responder. Afinal, era um homem, e no um menino. Entretanto, ele fez uma careta, tirou os cabelos da testa,
num gesto que a fez lembrar muito o marido, e por fim admitiu:
       - Infelizmente, amo.
       - Infelizmente?
       - Existe um problema, mame.
       A chegada repentina de Lusa criou uma complicao para a qual ele no se sentia preparado. Mas, agora que ela estava ali, Lo descobrira, para seu espanto,
que na realidade seria bom mesmo conversar com a me sobre Jodi, para revelar o que sentia e falar de suas dvidas e sua confuso.
       -  Quando se est apaixonado, sempre existe algum problema. Se no, no  amor. Ento, me conte, do que se trata? O pai da moa no gosta de voc? Os pais
sempre so assim com as filhas. Eu me lembro do meu...
       - Mamma, por enquanto, no conheo o pai de Jodi. Contei para voc que a amo, mas o que no contei ainda  que ela no me ama.
       - No?! Mas esto noivos, Leonardo, e confesso que no gostei nada de saber da notcia por sua secretria. Entretanto...
       - Mamma, por favor!
       Ao contar tudo a Lusa, Lo tivera o cuidado de, digamos assim, edit-la, para que a me no incorresse no mesmo erro que ele, precipitando-se em tirar concluses
erradas sobre Jodi. Mas a impresso que teve foi de que Lusa no ficara satisfeita com a situao.
       - Voc a ama, mas ela no ama voc. Concordou em ficar noiva, para que pudesse defender a reputao, j que, por acaso, dormiu em sua sute de hotel e foi
vista saindo de seu quarto na manh seguinte.
       Lusa arqueou as sobrancelhas de um jeito que fez o corao de Lo disparar.
       - Estou muito interessada em conhecer essa sua noiva, Leonardo.
       Ele suspirou.
       - No posso prometer nada. Terei de ir para Londres hoje  tarde a negcios, e planejo ficar l por alguns dias. Se quiser vir comigo e fazer algumas compras...
       - Eu moro na Itlia. Temos Milo, no preciso comprar nada em outro lugar. No, filho, enquanto voc estiver em Londres, ficarei aqui e esperarei que volte.
Onde essa sua noiva mora?
       Lo exalou outro suspiro.
       - Aqui em Frampton. Mamma, sei que quer ajudar, mas, por favor, peo que no...
       - ...interfira? Sou sua me, Leonardo, e sou italiana.
       - Entendo. Contudo, gostaria que voc tambm entendesse que, uma vez que sei que Jodi no me ama, ser muito constrangedor se ela descobrir que a amo. Lgico
que no quero despertar em nenhum de ns esse tipo de emoo, o que quer dizer que... - Respirou fundo. - O que lhe falei, mama,  segredo, e s voc sabe disso.
No quero que conte para Jodi, nem que a procure para discutir o assunto. No gostaria que ela se sentisse constrangida, de jeito nenhum.
       Por um momento, Lo pensou que Lusa fosse se recusar a aceitar seu pedido, mas ela acabou concordando.
       - No a procurarei.
       - Obrigado.
       Enquanto ele se inclinava para beij-la, Lo ouviu Lusa reclamar:
       - Quando rezei para voc se apaixonar, no foi nada disso que imaginei.
       - Voc quer ter netos, sei disso. - Lo deu de ombros e sorriu, tentando amenizar o tom da conversa.
       -  Sim, quero. Porm, mais do que tudo, gostaria de ver voc ao lado de algum que ama. Que sua vida fosse enriquecida e completa, e que tivesse um amor do
tipo que eu e seu pai compartilhamos. Quero para voc o que toda me deseja para seu filho: que seja feliz.
       Jodi olhava para a tela de seu computador, atenta, relendo a carta de demisso que escrevera. Estava pronta, e nada a impediria de imprimi-la e remet-la
pelo correio, mas de alguma maneira no conseguia fazer isso ainda.
       Levantou-se e comeou a andar de um lado para o outro e, de repente, num impulso, pegou as chaves e caminhou em direo  sada.
       Era um lindo dia de vero, e os jardins dos chals que se alinhavam daquele lado da vila estavam repletos de flores, criando um cenrio idlico.
       Em outras circunstncias, bastaria olhar para aquela paisagem para sentir-se bem e feliz, para achar que era uma pessoa privilegiada por morar num lugar bonito
como aquele, por ter um trabalho de que gostava, uma famlia que amava, um estilo que adorava.
       Mas no o homem que amava. E logo no teria tambm o trabalho querido.
       Embora a escola fosse importante para Jodi, no se comparava  intensidade do amor que sentia por Lo.
       Com o pensamento longe, Jodi caminhou para a escolinha. Do lado oposto, fora da igreja, havia um banco, no qual se sentou. Observou aquele lugar, que tanto
significado tinha para ela e pelo qual lutara tanto.
       No era vaidosa a ponto de se considerar insubstituvel. Claro, outras professoras poderiam ser to competentes ou at mais. Mas ser que alguma professora
seria capaz de amar aquela escola tanto quanto Jodi? Ser que outra mulher amaria Lo tanto quanto o amava?
       Com os olhos cheios de lgrimas, teve de procurar na bolsa um leno de papel, e s ento percebeu que havia uma outra mulher ao lado dela no banco.
       - Voc est bem? No pude deixar de notar que chorava. O comentrio da estranha pegara Jodi desprevenida.
       No era comum entre os ingleses proferir palavras de solidariedade para um desconhecido, no importando o grau de curiosidade que uma situao despertasse.
       Tentando manter a compostura, Jodi ergueu a cabea e virou-se para encar-la.
       - Estou bem, obrigada. - Esforou-se por parecer distante e desinteressada, mas, para seu pavor, as lgrimas comearam a rolar pelo rosto e sua voz ficou
presa na garganta.
       Jodi sabia que a qualquer momento desataria a chorar como uma criana.
       - No, nada disso. Est muito preocupada e tambm com raiva de mim por lhe dizer isso, mas algumas vezes, falar com um desconhecido pode ajudar. Vi voc olhando
para a escola.
       - . Eu... leciono aqui. Pelo menos, lecionava, porque agora... - Mordeu o lbio.
       - Decidiu partir - arriscou sua interlocutora. - Talvez tenha de se mudar, e est triste porque sabe que sentir saudade deste lugar to lindo.
       Embora tivesse um ingls perfeito, Jodi intuiu que havia algo naquela senhora que no era britnico. Devia ser algum de fora, que estava na cidade de passagem,
algum que ela nunca mais tornaria a ver.
       De repente, por alguma razo inexplicvel, Jodi percebeu que queria conversar com ela, para desabafar e buscar, seno uma explicao para o que acontecia,
ouvir o ponto de vista de um outro ser humano. Algo lhe dizia que aquela pessoa seria capaz de entender. Estava estampado no calor do semblante dela, e se refletia
em seu sorriso franco.
       - Estou apaixonada, mas o homem que eu amo... no me ama.
       - No? Ento ele  um tolo! Qualquer homem que no ama a mulher que o ama  um tolo, - Sorriu mais uma vez, e Jodi notou que era mais velha do que imaginara
a princpio, talvez por causa de sua elegncia. Devia ter quase sessenta anos. - Por que o rapaz no a ama? Ele disse isso?
       Jodi quase sorriu.
       - No, mas... deu a entender que...
       -  Mas vocs so amantes? - A mulher tinha uma perspiccia to impressionante que Jodi sentiu dificuldade de respirar.
       Percebeu que estava ficando vermelha, quando foi obrigada a admitir que a estranha tinha razo.
       - Sim, mas... ele no... Fui eu que o instiguei... eu... - Parou de falar e tornou a mordiscar o lbio.
       Havia coisas que no conseguia traduzir em palavras. No entanto, sua companhia parecia no se deixar intimidar.
       - Voc o seduziu?
       Parecia mais surpresa do que chocada, e quando Jodi a observou, notou que, na verdade, os olhos castanhos dela davam a impresso de que sorriam.
       - Bem, eu... o que peguei desprevenido. Adormeci, sem querer, na cama dele, que no sabia que eu estava l. Quando acordei e percebi que... - Jodi interrompeu
a frase no meio. Fazia uma espcie de confisso, uma catarse, contando pela primeira vez tudo o que acontecera e como se sentira. - Eu o tinha visto antes, no saguo
do hotel. No sabia de quem se tratava, mas...
       - Sentiu-se atrada por ele.
       Jodi assentiu, agradecida.
       -  Sim. Aquele homem me afetou de um jeito como nenhum outro antes. Olhei para ele e... Sei que parece bobo, mas acho que me apaixonei  primeira vista. E
quando acordei e descobri que estava em seu leito foi como se meu corpo tivesse se lembrado do que sentira antes. Porm, ele pensou que eu estava l porque... Ele
me perguntou... No devia ter feito isso, senti tanta vergonha!
       - Vergonha de se apaixonar?! Por que deveria se envergonhar disso?  a coisa mais natural do mundo.
       - Apaixonar-se, sim. Mas meu comportamento, o jeito com que eu... - Jodi teve de engolir em seco para tentar evitar o pranto, que ameaava cair mais uma vez.
       Mas a senhora parecia decidida a levar a conversa at o fim.
       -  Quer dizer que reencontrou um homem pelo qual havia se apaixonado. E diz que ele no a ama, mas tem certeza disso?
       - Sim.
       - E agora, est sentada a, chorando, porque no pode suportar a idia de viver sem ele.
       -  Por causa disso e tambm por outros motivos. - Jodi deu um suspiro. - Depois que descobriu que eu no era o que imaginara e descobriu a verdade a meu respeito,
avisou que se houvesse alguma conseqncia de nossa intimidade, ento ele achava que eu deveria...
       Jodi desviou o rosto.
       - Eu falei para mim mesma que era impossvel amar um homem assim, insensvel a ponto de querer destruir a vida de uma criana. Como poderia am-lo?!
       - No posso acreditar no que diz.  impossvel, inimaginvel...
       - Posso lhe garantir que estou sendo franca. Tambm no queria crer, mas ele falou isso para mim. Disse que alguma coisa tinha de ser feita. Claro, naquela
poca eu achava que seria impossvel que eu pudesse estar... mas agora...
       Quando Jodi ps os braos ao redor de si, como se quisesse se proteger, sua companheira fez uma pergunta direta:
       - Voc vai ter o filho dele?
       Jodi fez que sim.
       - E ainda estou sendo alvo de uma espcie de investigao, porque fui vista saindo da sute dele. Como professora e coordenadora da escola, deveria ter uma
conduta ilibada. Foi por isso que ele sugeriu que ficssemos noivos, por causa do falatrio e para me proteger.
       Jodi ergueu a mo direita, na qual o anel que Lo lhe dera brilhava  luz do sol quase tanto quanto os olhos dela.
       - Mas como ele pode me oferecer proteo e ao mesmo tempo me pedir que destrua o prprio filho?
       - O que voc vai fazer?
       - Pretendo me mudar daqui e recomear em algum outro lugar.
       - Sem contar a seu amante sobre o beb?
       Depois de tudo o que lhe contara, como a senhora podia fazer um comentrio to crtico? -  perguntava-se Jodi.
       - Como posso dizer a ele, se j afirmou que no quer a criana? "Alguma coisa ter de ser feita", foi o que me disse, e eu posso imaginar que tipo de coisa
vai propor. Mas prefiro morrer a ter de fazer algum mal a meu beb! - Jodi sentiu raiva e percebeu que seus instintos maternais comeavam a aflorar com toda a fora.
       No fazia a menor idia do tempo que permanecera ali sentada, conversando com aquela desconhecida, mas estava to cansada, to exausta que queria ir para
casa e dormir.
       Ao se levantar, deu um sorriso resignado para sua nova amiga.
       - Obrigada por me ouvir. - Virou-se para ir embora, mas a mulher tambm se levantou e, para surpresa de Jodi, envolveu-a num caloroso abrao.
       - Seja forte, minha querida. Vai dar tudo certo, posso garantir.
       Ao v-la sorrir, Jodi teve uma estranha sensao, como se houvesse naquela mulher algo de familiar. Ora, mas aquilo era ridculo. Jodi sabia que nunca a vira
antes.
       CAPITULO X
       Leonardo, voc precisa voltar para Frampton imediatamente.
       - Mamma...
       - J, Leonardo! E, antes de mais nada, pode me explicar como a pobre Jodi tem tanta certeza de que voc no apenas se recusa a assumir a paternidade do filho
que fizeram juntos, mas tambm nega a essa criana o direito de nascer?!
       - O qu? Que criana? Jodi me garantiu que no havia nenhuma chance de que estivesse grvida.
       - Pois ela me disse que est, e nem precisava. Eu vi nos olhos dela. Voc a magoou demais. Jodi acredita que no a ama, e est sofrendo muito porque pensa
que no quer o filho nasa, ouviu?
       - No estou entendendo, me. Com Jodi pde imaginar uma coisa dessas? Eu jamais iria...
       -  Claro, eu sei disso. Mas, pelo jeito, sua Jodi no. "Teremos que fazer alguma coisa a respeito." Parece que voc falou uma coisa assim para ela.
       - O qu? Lgico, sim, porm, no foi isso que eu quis dizer, mas sim que, se ela estivesse esperando beb, teramos que nos casar. - Lo franziu a testa.
- Como pde interpretar que eu...
       - Voc devia falar isso tudo para Jodi, Leonardo, e no para mim. E  melhor que seja rpido, porque a garota est pensando em ir embora e, se for...
       - Estou a caminho, me. E se voc falar alguma coisa para ela antes de minha chegada, ser proibida de ver seu neto at que ele tenha pelo menos um dia de
vida.
       Quando Lusa colocou o telefone no gancho, sorria da mais pura felicidade.
       Pegou de novo o aparelho e, dessa vez, ligou para a Itlia. Quando o marido atendeu, ela o cumprimentou:
       - Al, vov!
       - Vamos l, Jodi, estou morrendo de fome e detesto sair sozinho para comer.
       -  Mas, Nigel, estou to cansada! Garanto que pode convidar uma de suas namoradas para ir com voc.
       No entanto, no final, depois de tanta insistncia do primo, Jodi acabou desistindo, e nem reclamou quando Nigel passou para apanh-la em sua casa e depois
percebera que havia perdido a carteira em algum lugar do caminho, voltando em seguida para procur-la.
       Eram agora quase dez da noite, Jodi estava exausta, bocejando, e no culpava Nigel por consultar o relgio. Afinal, ela no fora uma companhia das mais agradveis.
       Mesmo assim, quando Nigel disse, de repente, aps olhar uma segunda vez para o relgio: "Podemos ir?", Jodi estranhou e piscou.
       - No quer terminar seu caf?
       - O qu? Oh, no... Estou vendo que voc est esgotada.
       Durante toda a refeio, Jodi notara que o primo comportava-se de maneira estranha, evitando encar-la. Mas Jodi estava exaurida demais para perguntar o que
havia de errado. Em vez disso, ficou em silncio, enquanto saam do restaurante e caminhavam em direo ao estacionamento lotado.
       Assim que chegaram ao chal, Jodi convidou-o a entrar, mas, para sua surpresa, Nigel no aceitou.
       Assim que ele partiu, ela pensou em subir e ir direto para a cama.
       Na sala de visitas, a luz da tela do computador continuava a iluminar o pequeno ambiente, mas Jodi nem ao menos reparou nesse detalhe. Nem notou os bebs
que saltitavam na tela de descanso, onde se lia a frase: "Mame ama voc, filhinho!".
       No andar de cima, foi para o banheiro, tirou a maquiagem e tomou um banho rpido, antes de andar pelo quarto, nua, sem necessidade de acender a luz.
       Estava quase dormindo em p, quando puxou a coberta da cama para se deitar na boa e antiga king zize, que ocupava quase o espao todo. Ningum, alm de Jodi,
dormira nela. No entanto, sem dvida alguma, havia algum ali naquele exato momento!
       Era algum que reconheceria em qualquer lugar do mundo, sem precisar olhar para o rosto. Conhecia-o pelo cheiro, pelo ar que a presena de Lo emanava, a
sensao que ele espalhava a seu redor, sempre que se encontrava por perto.
       Lo estava ali, dormindo em seu leito. Mas aquilo no podia ser verdade! Devia estar louca, sonhando acordada!
       - Lo... - murmurou Jodi, quando dois braos bem reais a envolveram, calorosos, prendendo-a contra um corpo masculino to familiar.
       A emoo intensa que sentia embargava-lhe a voz.
       -  Como pde imaginar que no te amo, tolinha? De onde tirou essa idia? Sou louco por voc, e vou te amar para sempre! Pensei que voc no me amasse, mas
dizem que a gravidez afeta a capacidade de raciocnio lgico da mulher.
       - Lo!
       Jodi no conseguia entender o que estava se passando e, o mais importante, no podia imaginar como ele chegara quelas concluses.
       - Como? O qu?
       Mas Lo no parecia em condies, ou com vontade, de responder nada. Pelo menos, no naquele momento.
       Os lbios dele distribuam pequenos beijos pelo pescoo de Jodi, pelo seu rosto, sem parar de murmurar palavras de amor ao p do ouvido. Ao mesmo tempo, e
com delicadeza, deslizava a mo sobre o ventre dela.
       - Como pde imaginar que eu no desejava que tivesse nosso filho, Jodi? Na primeira vez em que nos encontramos, ao invadir meu quarto, voc invadiu tambm
meu corao. E, desde ento, no houve um dia, uma nica hora sequer em que eu no a desejasse, O tempo todo, a cada minuto, estive atormentado pelo amor que senti
desde o segundo em que a vi naquele saguo.
       Lo a beijou com ardor.
       - Graas a Nigel, que me emprestou a chave, consegui entrar aqui e correr para a cama. E j vou avisando, garota, que no pretendo sair daqui at ouvi-la
dizer que me ama e quer que eu fique aqui, a seu lado, em sua vida e na vida de nosso filho... para sempre!
       - Para sempre. - Maravilhada, Jodi enxugava as lgrimas de alegria.
       -  Cheguei a pensar que am-la seria uma tortura, mas agora descobri que a verdadeira tortura seria perd-la. Pode imaginar o que foi para mim encontr-la
em minha cama, t-la a meu lado e am-la? - Lo gemia de paixo. - Ser que terei que provar para voc?
       - Sim, prove.
       - Ah, ? - Ele sorriu largo. - Tudo bem.
       Fizeram amor com calma e delicadeza, conscientes da responsabilidade que tinham como futuros pais. Depois, com mais mpeto, e apaixonados, reservaram-se o
direito de serem tambm amantes.
       Ao amanhecer, Jodi resolveu saber como tudo acontecera. Por que Lo mudara de idia e voltara de Londres de uma hora para outra.
       - Explique-me o que aconteceu.  como se uma fada madrinha tivesse agitado sua varinha de condo...
       Apoiando-se sobre um cotovelo, Lo a olhou com ternura.
       - No foi nenhuma fada-madrinha, mas minha adorada mame.
       - O qu?! - Jodi sentou-se na cama.
       - Isso mesmo. Minha me veio da Itlia para me visitar. Ficara sabendo, por minha secretria, sobre nosso noivado, quase por acaso. Sabe como so as mes.
Quando ela soube da notcia, resolveu vir para conhecer minha noiva, a garota que ouvira as preces de sua benzedeira de confiana, l na vila onde mora. No, no
me pergunte nada ainda. Escute primeiro, at o fim.
       Lo fez um sinal para Jodi.
       -  Mame queria saber tudo sobre voc, e eu contei. S que, a certa altura, fui obrigado a confessar que estava apaixonado por voc. Falei para ela que meu
amor no era correspondido. Como eu precisava ir para Londres a negcios, convidei-a para viajar comigo. Porm, a mamma recusou, dizendo que ficaria aqui at o dia
de pegar o vo de volta para a Itlia.
       Jodi o ouvia com ateno.
       - Conheo-a muito bem, e sabia que tentaria conversar com voc, por isso, a fiz prometer que no iria procur-la em nenhuma circunstncia. Mame me prometeu,
mas, pelo visto, o destino interveio e mudou toda a histria. Graas a Deus. A mamma foi at a vila dar passeio a p e, segundo me disse, viu uma mocinha chorando.
Aproximou-se para ajudar, sentou-se ao lado dela...
       - Ento, era sua me?! -Agora comeava a entender tudo! - Achei mesmo que havia algo de familiar naquele rosto... Contudo, no conseguia detectar direito
o que era.
       Sorrindo, Lo prosseguiu:
       - Assim que mame chegou do passeio, ligou para mim em Londres, exigindo que explicasse como voc ficara com a impresso de que eu no desejava nosso filho.
Jodi... - Ele a encarou com seriedade. - Como pde pensar que...
       - Voc disse que teramos de dar um jeito na situao... - defendeu-se, com firmeza.
       -  Sim, mas dar um jeito no significava o que voc concluiu. O lugar que eu queria que visitasse era a igreja, para que pudssemos nos casar. Era isso que
eu queria dizer. Mesmo se no a amasse, jamais poderia fazer uma coisa dessas. Ainda bem que minha me me conhece mais do que voc! Bem, agora, estamos quites. Eu
a julguei mal uma vez, e voc fez o mesmo comigo. Assim sendo, sugiro que passemos uma borracha sobre tudo isso e comecemos do zero.
       Lo respirou fundo.
       - Eu te amo, Jodi Marsh, e quero que case comigo!
        Jodi gargalhou, pela primeira vez em semanas.
       - Tambm te amo, Lo Jefferson. E quero me casar com voc.
       Sem demora, Lo a tomou em seus braos e rolou sobre Jodi, com delicadeza.
       EPLOGO
       -E voc pretende continuar a trabalhar na escola? Jodi sorriu, virando-se para Lo, olhando por cima do ombro de sua sogra, enquanto Lusa Jefferson, toda
animada, embalava o neto no colo.
       Era aniversrio de casamento de Lo e Jodi, e eles tinham ido para a Itlia, visitar os pais de Lo.
       - Por enquanto, sim, mas s por meio perodo - respondeu Jodi.
       As cartas de apoio que recebera de muitos pais de alunos haviam comovido Jodi, e tanto ela como Lo concordaram que devia esse favor a todos que a apoiaram.
Ento, decidira continuar lecionando at encontrar uma substituta  altura. Afinal, os filhos deles tambm iriam estudar l um dia.
       Lo comprara a casa de Ashton, e Jodi passara todas as horas livres, nos meses que antecederam o nascimento de Nicholas Lorenzo, se entretendo com a decorao
e preparando o quarto do beb.
       Os pais de Lo vieram para Frampton, para o nascimento do neto, e trouxeram tambm um convidado a mais, para surpresa de Lo e felicidade de Lusa.
       - Ela se chama Maria, e diz que vai fazer uma poo especial para garantir sua felicidade, a de Lo e a dos filhos de vocs dois - sussurrara Lusa, ao ouvidos
de Jodi, quando apresentou-lhe a benzedeira italiana.
       - Minha felicidade estar garantida... - Jodi esboara um sorriso aberto, confiante e cheio de amor, olhando em direo ao marido. -... Enquanto eu estiver
ao lado de Lo!
